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quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Numa formatura...



“Numa cerimônia de graduação…”
Cerimonialista: “E agora, a paraninfa da turma, Deisiane Silva”
[Aplausos]

A maior emoção da minha vida foi quando eu olhei para aquele quadro gigante formado por um monte folhas de sulfite coladas lado a lado e lá, do lado do número doze eu li “Deisiane Maria Ferreira Silva”. Era eu! Aprovada para a Universidade de Medicina da USP. Tinha que avisar minha mãe urgentemente. Lembro que naquele dia eu tomei o ônibus e fui correndo. Me lembro que enquanto ia na condução sentido São Mateus, em meio à felicidade do momento, me vi lembrando-me do dia em que tudo isso começou.

Minha mãe trabalhava no centro de coleta seletiva na Avenida Sapopemba. Ela ajudava na coleta e seleção de lixo reciclável. Nesse dia, quando cheguei da escola, havia uma mochila novinha na minha cama. Cadernos, livros, etc. Eu nunca tinha tido isso. Tinha os da prefeitura que chegavam no meio do ano, quando chegavam. E nesse ano, já era agosto e nada. Seguia usando os cadernos do ano anterior para escrever. Eu tinha treze anos e estudar não era exatamente a minha prioridade nessa época. Mas a mochila era bonita! Abri e vi cadernos seminovos e livros em bom estado. Nem eram livros do que eu estava estudando, mas eram livros novos e pareciam ser para mim. Minha mãe então veio e me explicou que alguém havia jogado essa mochila no lixo e apareceu lá no centro de reciclagem. Ela falou com a supervisora dela que não viu problemas em trazer para casa. Agradeci minha mãe com um abraço e um beijo. A vida não foi fácil para ela. Sabe, sempre fomos gente honesta, trabalhadora, mas depois que meu pai morreu, minha mãe tinha ficado num estado de depressão profunda. Ela estava grávida, perdeu o filho e a capacidade de ter filhos também. Quando voltou ao trabalho, lhe deram férias e ao voltar das férias a demitiram. Tivemos que largar tudo que já havíamos conquistado e recomeçar a vida na favela… Mas isso eu só sabia pelas histórias. Quando meu pai morreu eu tinha menos de dois anos de vida. Quando minha mãe saiu, eu peguei o material e comecei a olhar, e folhear. De repente, um papel caiu do caderno. Estava dobrado, em três partes, como uma carta a ser colocada em um envelope. E ela me marcou profundamente. Essa carta eu gostaria de compartilhar com vocês hoje:


“

Mãe e Pai, me desculpem. Desculpem-me por haver nascido e por haver sido um problema para todos vocês por tanto tempo. Mãe, perdoe a insensatez de ter saído de seu útero vivo. Pai, perdoe a falta de senso de haver sido este espermatozoide a ter fecundado o óvulo da mamãe. Eu não queria destruir a vida ou os sonhos de vocês. Não tinha essa intenção. Eu só queria existir e nascer. Achei, por um tempo, que poderia sonhar grande. Ter uma profissão que ajudasse as pessoas. Olhei para meu mundo e um dia, quando você pai me levou ao hospital naquela vez em que eu estava gripado, vi aquele senhor de branco perguntando coisas, me analisando e, como que num passe de mágica, ele disse o que eu tinha e como eu melhoraria. Quis ser como ele. Depois, descobri que ele era médico. Médico! Palavra bonita. Doutor é como todos lhe chamam. Queria ser isso. Mas não poderei. Como foi que me permiti sonhar tanto? Como uma criatura como eu que não deveria nem ter nascido poderia pensar em ajudar outros a viver? Como alguém como eu, de existência questionável poderia ajudar outros a existir? Não! Isso não é nem nunca será para mim. Eu tenho destino certo e já está decidido. Quando vocês lerem essa carta, eu já estarei morto. Vou saltar e voar até morrer de encontro ao chão e voltarei a ser pó. O pó que nunca deveria ter deixado de ser. E vocês, então, voltarão a ser felizes. E poderão passear e viajar. E, assim, eu terei curado a vida de quem mais importa e de quem mais amo: a de vocês. Amo vocês dois!


Beijos,

Miguel.

”

(1)


Cresci e reli muitas vezes essa carta. Não sei nem procurei saber o que aconteceu com o Miguel. Realmente creio que ele se matou. Provavelmente alguma depressão por conta da briga constante dos pais, ou por qualquer outra razão relacionada a eles. Também não sei quantos anos tinha, mas a julgar pelo material na mochila, ele estava na oitava série do fundamental.

Quando era criança, Miguel passou a ser meu amigo imaginário. Conversava com ele, pedia conselhos, me revoltava, chorava e ria. Mas depois, quando cresci e analisei um pouco melhor as palavras dele, vi que, independente do que tenha acontecido, ele tinha uma vocação. Ele queria ser médico desde jovem e já entendia o que isso significava: curar pessoas. Parece óbvio, mas não é. Ele foi até às últimas consequências para tentar curar seus pais. Não sei se conseguiu. Creio que não. Mas por quem nos importamos, não medimos esforços, por mais idiotas que sejam nossas escolhas e opções, fazemos o que estiver ao nosso alcance para vê-los bem. E quando nos dizem que estudamos e nos formamos para aprender mais técnicas e nos capacitarmos para nosso futuro trabalho, eu concluo dizendo que não. Isso é só uma parte. Mas a parte mais importante, o real motivo pelo qual nos formamos médicos é para ampliarmos mais e mais a quantidade de pessoas por quem faríamos de tudo para vê-las melhor. É para entender essa empatia e passá-la adiante. 




Créditos da imagem: Alpha convites

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Melhor não namorar


“Felipe, sete vezes cinco”, me perguntou a professora em sua chamada oral. Sempre fui bom em cálculos mentais e a tabuada se mostrava fácil demais para mim. “trinta e cinco professora”, respondi orgulhoso. A Amanda me olhou e me senti envergonhado. Olhei para baixo, tentando parecer invisível. Não funcionou. “Carlinhos, nove vezes quatro”, e ele respondeu “trinta e seis”. Levantei os olhos e Camila agora conversava com Amanda mas ela, ainda assim, como quem percebe que está sendo observada, me olhou novamente. Um frio no estômago. “Douglas, oito vezes seis”, ouvi, mas mantive-me firme, olhando Amanda. Lembrei do dia anterior, quando ela sentou do meu lado na aula de ciências para fazer o trabalho sobre roedores. Ri ao lembrar dela pondo os dentinhos pra fora e fazendo orelhas com as mãos, imitando um ratinho. Ela sentiu alguma vergonha com meu sorriso e voltou-se para Camila novamente. “Marina, 3 vezes sete?”, “vinte e um professora”. Fiquei ali, sonhando com a menina, olhando seu rosto de lado, sua pele, seus cabelos. “Leonardo, quatro vezes seis”. O uniforme da escola ficava tão bem nela, e a mãe dela sempre colocava algum lanche gostoso pra ela trazer.

“Trinta e quatro, professora”. Um olhar em seco da professora, que repetiu a pergunta: “Camila, quatro vezes seis?”, e ela, parando de falar com a amiga, disse “vinte e quatro ‘fessora”. Foi o tempo que Amanda precisou para virar-se outra vez para mim, e colocar os dentes em forma de rato outra vez. Ri e ela correspondeu. Camila então olhou para mim e, mostrando ciúmes da amiga, a puxou pelo braço. A professora percebeu e disse “Amanda, oito vezes sete?” Era a pergunta mais temida da tabuada. Ninguém lembrava direito essa resposta. Claramente a professora estava se vingando pela desatenção das meninas. Eu fiquei pensando “cinquenta e seis, cinquenta e seis, cinquenta e seis” repetidamente, como se ela pudesse escutar meus pensamentos. Amanda, pensou um pouco e disse “cinquenta e quatro, prô Nanda!”. Vendo como fiquei preocupado, a professora deu seu golpe de misericórdia: “Felipe, oito vezes sete?” Ah… eu tinha que responder, não é mesmo? Ou deveria errar de propósito? Fiquei olhando para a professora e notei que ela sabia que eu sabia a resposta correta. Ela queria que eu respondesse.

Mas a Amanda ia me odiar depois, não ia? Ela ia se sentir humilhada por responder errado e ser eu a corrigi-la.  Mas valia nota! Não podia responder errado sabendo o certo. “Felipe?” perguntou novamente prô Nanda, olhando-me com aqueles olhos de ‘te peguei’. Tomei coragem, respirei fundo e respondi em tom de pergunta: “Cinquenta e…. cinco?” Eu sabia que essa era a resposta para qualquer pergunta, menos a que ela tinha feito… Me senti mal, estômago embrulhado… A professora ficou ali, olhando, marcou o “X” no caderno dela e virou. “Jaime, oito vezes sete?” e o Jaime respondeu sem titubear: “cinquenta e seis prô Nanda”. As perguntas continuaram, mas a ‘Mandinha não olhou mais pra mim. Fiquei chateado. 

“Fabiola, cinco vezes quatro?”, “Vinte prô”. Lembrei do aniversário de vinte anos do Gui. Gui é meu irmãozão! Foi bacana demais a festa, no último fim de semana. Ele estava com a namorada dele, a Bete, e um monte de amigos deles. Fizemos um churrasco lá em casa e eu brinquei pra caramba. Mas teve uma hora que o tio Alfredo me perguntou: “E aí, como vai sua namoradinha da escola? Como é mesmo o nome dela?” “Amanda”, respondi, “mas ela não é minha namorada!”. Ele riu e bagunçou meu cabelo, mas como explicar? Minha mãe e meu pai dizem que são namorados. Eles se beijam e se abraçam e a Amandinha e eu não fazemos isso. Já peguei na mão dela, e ela me deu um beijo na bochecha no meu aniversário, mas só isso. Meus pais também brigam e discutem, às vezes gritam e ficam sem se falar um com o outro, mas eu nunca gritei com a ‘Mandinha. Isso é feio. E se pra namorar tem que ser assim, prefiro não namorar. Não! Ela não pode ser minha namorada. Pra ser namorada tem que machucar, tem que fazer sofrer e eu não quero isso não. Eu me lembro de quando o Gui brigou com a Bete. Ele chegou chorando em casa. Eu não quero chorar.

“Felipe?” Disse a professora. Olhei para ela, que disse pausadamente, demonstrando que estava repetindo a pergunta que eu não tinha escutado: “Dezesseis dividido por quatro…” Refleti um pouco. ‘Quando é que tinham saído das contas de vezes para as de dividir?’ Respondo: “Quatro prô Nanda”. “Obrigada” responde ela. “Alessandra, quarenta e cinco por nove?” Essa era mais complicada… Tinha que lembrar da tabuada do nove… era… “cinco professora…”, respondeu Alessandra antes que eu lembrasse da resposta. A Alessandra tinha o mesmo nome da minha prima, filha da tia Carlinda. A um tempo atrás brincávamos muito juntos, antes da tia Carlinda se separar do tio João e ela ter que voltar pro interior. Minha mãe e a tia Carlinda diziam que éramos namoradinhos. Tiravam foto de nós dois com as mãos dadas e a Alessandra me abraçava e fazia um monte de poses. Era estranho, mas acho que estava perto de ser um namoro. Afinal, meus pais fazem um monte de coisas juntos e nós também. Ela vinha comigo jogar bola e eu brincava de boneca com ela. Às vezes brigávamos e nos chateávamos e minha mãe dizia “logo passa”, mas nem sempre passava logo. Tinha vez que tinha que esperar o outro dia pra brincar de novo. Mas ela não era tão engraçada como a ‘Mandinha. Aí eu percebi que a Amanda deveria ser a menina mais legal da escola. “Sérgio, sessenta e quatro dividido por oito?” O Sérgio sentava ao meu lado. Ele respondeu: “Quatro?” A professora marcou o X no caderno e disse: “Amanda?”, e ela respondeu “Oito prô Nanda” e se virou novamente para mim. Agora sem brincadeira. Era um olhar do tipo ‘viu como eu sei responder?’, e eu me envergonhei, mas, sem querer, pisquei um olho para ela e sorri. Ela ficou vermelha e virou para frente outra vez. 

Não sei o que deu em mim. A Amanda era a menina mais bonita da escola, com certeza. Podia desenhá-la de memória. Aí me dei em conta. Não éramos mesmo namorados. Meu pai nunca desenhou minha mãe, nem o Gui alguma vez desenhou a Bete. Abri o caderno e comecei. Cabelo, rosto, olhos, boca… Nariz! É… Eu não era bom desenhando… ficou horrível. Ai… Será que a gente está namorando então? Não pode ser… Namorar é ruim. Eu lembro de como a irmã mais velha da Amanda, a Vanda ficou mal quando o Miguel morreu no ano passado. Ela nem vinha pra escola, de tanto que ficou mal. Eu lembro da Amanda dizendo que ele tinha nome de anjo, mas não conseguiu voar (1). Já pensou se eu tento voar qualquer dia, como a ‘Mandinha ia sofrer? Melhor nem pensar nisso…

“Cinquenta e cinco por cinco Felipe”, “Onze prô”, respondi rapidamente. Na festa junina desse ano eu dancei com ela. A quadrilha foi bonita e o Douglas foi o noivo. A noiva foi a Camila. Como a Amanda e a Camila são muito amigas, ficamos logo atrás deles. Na hora de dançar juntinho, eu coloquei minha mão na cintura dela e viramos, voltamos e rodamos, parecia mágico. Me sentia flutuando no ar. Uma vez, escutei meu irmão dizer que a Bete fazia ele flutuar… E eles namoram… 

Fiquei pensando… Será que o Miguel e a Vanda dançavam? Será que ele pensou nela enquanto flutuava pelo ar sozinho naquele dia? Mas depois de voar, ele não voltou mais e a Vanda foi quem ficou triste… (1) a Vanda e a Amanda… Não… quase todo mundo que tinha alguma coisa a ver com ele ficou triste. Até eu fiquei meio triste… É, acho que namorar não é o melhor. A Amanda olhou para mim nesse momento em que meus pensamentos estavam longe. Olhou e pôs os dentinhos pra fora… ratinha… Eu sorri para ela e as pazes que nunca haviam sido desfeitas foram refeitas. Mas não estávamos namorando. É melhor assim. Melhor não namorar...


sexta-feira, 4 de março de 2016

Quanto custa?



O menino chega na banca de jornal e pergunta, apontando para a barra de chocolate:

- Quanto custa?

- Três reais. - responde o jornaleiro. O garotinho olha para as moedas na mão.

- Tó! - Diz entregando três moedas de cinquenta centavos ao vendedor.

- Aí não tem três reais.

- Tem sim!

- Não. Aí tem um e cinquenta.

- Mas tem três moedas…

- Só que são três moedas de cinquenta centavos, menino. Não sabe fazer conta não?

O menino fica zangado. Aponta para um pacotinho de balas.

- Quanto custa?

- Dois.

O menino fica pensativo.

- Faz por três moedas de cinquenta?

- Não.

- Ah faz, vai…

- O menino, não é não!

O rapazinho abaixa a cabeça e aperta as moedas na mão. Aponta para um outro pacotinho de balas.

- Quanto custa?

O jornaleiro respira fundo.

- Dois e cinquenta.

- Faz mais barato?

- Menino, não! Com um e cinquenta te vendo dez balas dessas aqui. - E aponta com o dedo.

- Nossa, tá caro, né?

- É.

- Vende quinze?

- Não. Vendo dez.

- Mas tá muito caro. O que mais você vende?

O jornaleiro dá o troco a uma senhora que pagava por sua revista e em seguida diz:

- Que dá para você comprar com essas moedas?

- Claro, né?

Olhando bravo, o jornaleiro diz:

- Só as balas.

- Mas… só aquelas? - E aponta.

- Sim. dez delas. Vai querer?

- Faz doze?

- Dez, menino.

O menino para e pensa. Vê então o pacotinho de figurinhas do brasileirão. Aponta.

- Quanto custa?

- Dois e cinquenta moleque.

- Não dá pra levar um pacotinho, né?

- Não menino, não dá.

O menino pensa novamente, olha as balas… Olha as figurinhas e tem uma ideia.

- O senhor me empresta um real?

- Mas menino, claro que não!

Abaixa a cabeça novamente. Fica pensando. Olha novamente para a barrinha de chocolate. Aponta.

- Quanto custa mesmo?

O jornaleiro respira fundo.

- Três reais, moleque.

O menino olha as moedas, sacode os bolsos, mas nada…

- Posso ficar devendo?

- Não.

- E por que?

- Não faço fiado.

O menino dá de ombros. Mostra a mão com as moedas para o jornaleiro.

- Tó.

- Vai levar as balas?

- Vou.

O jornaleiro separa dez balas no balcão.

- Pode pegar.

O menino pega cinco em uma mão e cinco em outra.

- Obrigado. - O menino diz e sai da banca. Na frente está um menino, de rua. Pedinte.

- Dá uma bala aí. - Ele diz para o menino. Ele olha para uma mão, olha para outra e aponta com uma mão para o menino de rua.

- Tó.

Abre a mão e solta as balas na mão do menino. Guarda as outras no bolso e sai andando para um lado. O menino de rua pega uma para chupar e guarda as outras.

- Valeu mano!

O jornaleiro sorri e guarda as moedas.