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quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Numa formatura...



“Numa cerimônia de graduação…”
Cerimonialista: “E agora, a paraninfa da turma, Deisiane Silva”
[Aplausos]

A maior emoção da minha vida foi quando eu olhei para aquele quadro gigante formado por um monte folhas de sulfite coladas lado a lado e lá, do lado do número doze eu li “Deisiane Maria Ferreira Silva”. Era eu! Aprovada para a Universidade de Medicina da USP. Tinha que avisar minha mãe urgentemente. Lembro que naquele dia eu tomei o ônibus e fui correndo. Me lembro que enquanto ia na condução sentido São Mateus, em meio à felicidade do momento, me vi lembrando-me do dia em que tudo isso começou.

Minha mãe trabalhava no centro de coleta seletiva na Avenida Sapopemba. Ela ajudava na coleta e seleção de lixo reciclável. Nesse dia, quando cheguei da escola, havia uma mochila novinha na minha cama. Cadernos, livros, etc. Eu nunca tinha tido isso. Tinha os da prefeitura que chegavam no meio do ano, quando chegavam. E nesse ano, já era agosto e nada. Seguia usando os cadernos do ano anterior para escrever. Eu tinha treze anos e estudar não era exatamente a minha prioridade nessa época. Mas a mochila era bonita! Abri e vi cadernos seminovos e livros em bom estado. Nem eram livros do que eu estava estudando, mas eram livros novos e pareciam ser para mim. Minha mãe então veio e me explicou que alguém havia jogado essa mochila no lixo e apareceu lá no centro de reciclagem. Ela falou com a supervisora dela que não viu problemas em trazer para casa. Agradeci minha mãe com um abraço e um beijo. A vida não foi fácil para ela. Sabe, sempre fomos gente honesta, trabalhadora, mas depois que meu pai morreu, minha mãe tinha ficado num estado de depressão profunda. Ela estava grávida, perdeu o filho e a capacidade de ter filhos também. Quando voltou ao trabalho, lhe deram férias e ao voltar das férias a demitiram. Tivemos que largar tudo que já havíamos conquistado e recomeçar a vida na favela… Mas isso eu só sabia pelas histórias. Quando meu pai morreu eu tinha menos de dois anos de vida. Quando minha mãe saiu, eu peguei o material e comecei a olhar, e folhear. De repente, um papel caiu do caderno. Estava dobrado, em três partes, como uma carta a ser colocada em um envelope. E ela me marcou profundamente. Essa carta eu gostaria de compartilhar com vocês hoje:


“

Mãe e Pai, me desculpem. Desculpem-me por haver nascido e por haver sido um problema para todos vocês por tanto tempo. Mãe, perdoe a insensatez de ter saído de seu útero vivo. Pai, perdoe a falta de senso de haver sido este espermatozoide a ter fecundado o óvulo da mamãe. Eu não queria destruir a vida ou os sonhos de vocês. Não tinha essa intenção. Eu só queria existir e nascer. Achei, por um tempo, que poderia sonhar grande. Ter uma profissão que ajudasse as pessoas. Olhei para meu mundo e um dia, quando você pai me levou ao hospital naquela vez em que eu estava gripado, vi aquele senhor de branco perguntando coisas, me analisando e, como que num passe de mágica, ele disse o que eu tinha e como eu melhoraria. Quis ser como ele. Depois, descobri que ele era médico. Médico! Palavra bonita. Doutor é como todos lhe chamam. Queria ser isso. Mas não poderei. Como foi que me permiti sonhar tanto? Como uma criatura como eu que não deveria nem ter nascido poderia pensar em ajudar outros a viver? Como alguém como eu, de existência questionável poderia ajudar outros a existir? Não! Isso não é nem nunca será para mim. Eu tenho destino certo e já está decidido. Quando vocês lerem essa carta, eu já estarei morto. Vou saltar e voar até morrer de encontro ao chão e voltarei a ser pó. O pó que nunca deveria ter deixado de ser. E vocês, então, voltarão a ser felizes. E poderão passear e viajar. E, assim, eu terei curado a vida de quem mais importa e de quem mais amo: a de vocês. Amo vocês dois!


Beijos,

Miguel.

”

(1)


Cresci e reli muitas vezes essa carta. Não sei nem procurei saber o que aconteceu com o Miguel. Realmente creio que ele se matou. Provavelmente alguma depressão por conta da briga constante dos pais, ou por qualquer outra razão relacionada a eles. Também não sei quantos anos tinha, mas a julgar pelo material na mochila, ele estava na oitava série do fundamental.

Quando era criança, Miguel passou a ser meu amigo imaginário. Conversava com ele, pedia conselhos, me revoltava, chorava e ria. Mas depois, quando cresci e analisei um pouco melhor as palavras dele, vi que, independente do que tenha acontecido, ele tinha uma vocação. Ele queria ser médico desde jovem e já entendia o que isso significava: curar pessoas. Parece óbvio, mas não é. Ele foi até às últimas consequências para tentar curar seus pais. Não sei se conseguiu. Creio que não. Mas por quem nos importamos, não medimos esforços, por mais idiotas que sejam nossas escolhas e opções, fazemos o que estiver ao nosso alcance para vê-los bem. E quando nos dizem que estudamos e nos formamos para aprender mais técnicas e nos capacitarmos para nosso futuro trabalho, eu concluo dizendo que não. Isso é só uma parte. Mas a parte mais importante, o real motivo pelo qual nos formamos médicos é para ampliarmos mais e mais a quantidade de pessoas por quem faríamos de tudo para vê-las melhor. É para entender essa empatia e passá-la adiante. 




Créditos da imagem: Alpha convites

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Melhor não namorar


“Felipe, sete vezes cinco”, me perguntou a professora em sua chamada oral. Sempre fui bom em cálculos mentais e a tabuada se mostrava fácil demais para mim. “trinta e cinco professora”, respondi orgulhoso. A Amanda me olhou e me senti envergonhado. Olhei para baixo, tentando parecer invisível. Não funcionou. “Carlinhos, nove vezes quatro”, e ele respondeu “trinta e seis”. Levantei os olhos e Camila agora conversava com Amanda mas ela, ainda assim, como quem percebe que está sendo observada, me olhou novamente. Um frio no estômago. “Douglas, oito vezes seis”, ouvi, mas mantive-me firme, olhando Amanda. Lembrei do dia anterior, quando ela sentou do meu lado na aula de ciências para fazer o trabalho sobre roedores. Ri ao lembrar dela pondo os dentinhos pra fora e fazendo orelhas com as mãos, imitando um ratinho. Ela sentiu alguma vergonha com meu sorriso e voltou-se para Camila novamente. “Marina, 3 vezes sete?”, “vinte e um professora”. Fiquei ali, sonhando com a menina, olhando seu rosto de lado, sua pele, seus cabelos. “Leonardo, quatro vezes seis”. O uniforme da escola ficava tão bem nela, e a mãe dela sempre colocava algum lanche gostoso pra ela trazer.

“Trinta e quatro, professora”. Um olhar em seco da professora, que repetiu a pergunta: “Camila, quatro vezes seis?”, e ela, parando de falar com a amiga, disse “vinte e quatro ‘fessora”. Foi o tempo que Amanda precisou para virar-se outra vez para mim, e colocar os dentes em forma de rato outra vez. Ri e ela correspondeu. Camila então olhou para mim e, mostrando ciúmes da amiga, a puxou pelo braço. A professora percebeu e disse “Amanda, oito vezes sete?” Era a pergunta mais temida da tabuada. Ninguém lembrava direito essa resposta. Claramente a professora estava se vingando pela desatenção das meninas. Eu fiquei pensando “cinquenta e seis, cinquenta e seis, cinquenta e seis” repetidamente, como se ela pudesse escutar meus pensamentos. Amanda, pensou um pouco e disse “cinquenta e quatro, prô Nanda!”. Vendo como fiquei preocupado, a professora deu seu golpe de misericórdia: “Felipe, oito vezes sete?” Ah… eu tinha que responder, não é mesmo? Ou deveria errar de propósito? Fiquei olhando para a professora e notei que ela sabia que eu sabia a resposta correta. Ela queria que eu respondesse.

Mas a Amanda ia me odiar depois, não ia? Ela ia se sentir humilhada por responder errado e ser eu a corrigi-la.  Mas valia nota! Não podia responder errado sabendo o certo. “Felipe?” perguntou novamente prô Nanda, olhando-me com aqueles olhos de ‘te peguei’. Tomei coragem, respirei fundo e respondi em tom de pergunta: “Cinquenta e…. cinco?” Eu sabia que essa era a resposta para qualquer pergunta, menos a que ela tinha feito… Me senti mal, estômago embrulhado… A professora ficou ali, olhando, marcou o “X” no caderno dela e virou. “Jaime, oito vezes sete?” e o Jaime respondeu sem titubear: “cinquenta e seis prô Nanda”. As perguntas continuaram, mas a ‘Mandinha não olhou mais pra mim. Fiquei chateado. 

“Fabiola, cinco vezes quatro?”, “Vinte prô”. Lembrei do aniversário de vinte anos do Gui. Gui é meu irmãozão! Foi bacana demais a festa, no último fim de semana. Ele estava com a namorada dele, a Bete, e um monte de amigos deles. Fizemos um churrasco lá em casa e eu brinquei pra caramba. Mas teve uma hora que o tio Alfredo me perguntou: “E aí, como vai sua namoradinha da escola? Como é mesmo o nome dela?” “Amanda”, respondi, “mas ela não é minha namorada!”. Ele riu e bagunçou meu cabelo, mas como explicar? Minha mãe e meu pai dizem que são namorados. Eles se beijam e se abraçam e a Amandinha e eu não fazemos isso. Já peguei na mão dela, e ela me deu um beijo na bochecha no meu aniversário, mas só isso. Meus pais também brigam e discutem, às vezes gritam e ficam sem se falar um com o outro, mas eu nunca gritei com a ‘Mandinha. Isso é feio. E se pra namorar tem que ser assim, prefiro não namorar. Não! Ela não pode ser minha namorada. Pra ser namorada tem que machucar, tem que fazer sofrer e eu não quero isso não. Eu me lembro de quando o Gui brigou com a Bete. Ele chegou chorando em casa. Eu não quero chorar.

“Felipe?” Disse a professora. Olhei para ela, que disse pausadamente, demonstrando que estava repetindo a pergunta que eu não tinha escutado: “Dezesseis dividido por quatro…” Refleti um pouco. ‘Quando é que tinham saído das contas de vezes para as de dividir?’ Respondo: “Quatro prô Nanda”. “Obrigada” responde ela. “Alessandra, quarenta e cinco por nove?” Essa era mais complicada… Tinha que lembrar da tabuada do nove… era… “cinco professora…”, respondeu Alessandra antes que eu lembrasse da resposta. A Alessandra tinha o mesmo nome da minha prima, filha da tia Carlinda. A um tempo atrás brincávamos muito juntos, antes da tia Carlinda se separar do tio João e ela ter que voltar pro interior. Minha mãe e a tia Carlinda diziam que éramos namoradinhos. Tiravam foto de nós dois com as mãos dadas e a Alessandra me abraçava e fazia um monte de poses. Era estranho, mas acho que estava perto de ser um namoro. Afinal, meus pais fazem um monte de coisas juntos e nós também. Ela vinha comigo jogar bola e eu brincava de boneca com ela. Às vezes brigávamos e nos chateávamos e minha mãe dizia “logo passa”, mas nem sempre passava logo. Tinha vez que tinha que esperar o outro dia pra brincar de novo. Mas ela não era tão engraçada como a ‘Mandinha. Aí eu percebi que a Amanda deveria ser a menina mais legal da escola. “Sérgio, sessenta e quatro dividido por oito?” O Sérgio sentava ao meu lado. Ele respondeu: “Quatro?” A professora marcou o X no caderno e disse: “Amanda?”, e ela respondeu “Oito prô Nanda” e se virou novamente para mim. Agora sem brincadeira. Era um olhar do tipo ‘viu como eu sei responder?’, e eu me envergonhei, mas, sem querer, pisquei um olho para ela e sorri. Ela ficou vermelha e virou para frente outra vez. 

Não sei o que deu em mim. A Amanda era a menina mais bonita da escola, com certeza. Podia desenhá-la de memória. Aí me dei em conta. Não éramos mesmo namorados. Meu pai nunca desenhou minha mãe, nem o Gui alguma vez desenhou a Bete. Abri o caderno e comecei. Cabelo, rosto, olhos, boca… Nariz! É… Eu não era bom desenhando… ficou horrível. Ai… Será que a gente está namorando então? Não pode ser… Namorar é ruim. Eu lembro de como a irmã mais velha da Amanda, a Vanda ficou mal quando o Miguel morreu no ano passado. Ela nem vinha pra escola, de tanto que ficou mal. Eu lembro da Amanda dizendo que ele tinha nome de anjo, mas não conseguiu voar (1). Já pensou se eu tento voar qualquer dia, como a ‘Mandinha ia sofrer? Melhor nem pensar nisso…

“Cinquenta e cinco por cinco Felipe”, “Onze prô”, respondi rapidamente. Na festa junina desse ano eu dancei com ela. A quadrilha foi bonita e o Douglas foi o noivo. A noiva foi a Camila. Como a Amanda e a Camila são muito amigas, ficamos logo atrás deles. Na hora de dançar juntinho, eu coloquei minha mão na cintura dela e viramos, voltamos e rodamos, parecia mágico. Me sentia flutuando no ar. Uma vez, escutei meu irmão dizer que a Bete fazia ele flutuar… E eles namoram… 

Fiquei pensando… Será que o Miguel e a Vanda dançavam? Será que ele pensou nela enquanto flutuava pelo ar sozinho naquele dia? Mas depois de voar, ele não voltou mais e a Vanda foi quem ficou triste… (1) a Vanda e a Amanda… Não… quase todo mundo que tinha alguma coisa a ver com ele ficou triste. Até eu fiquei meio triste… É, acho que namorar não é o melhor. A Amanda olhou para mim nesse momento em que meus pensamentos estavam longe. Olhou e pôs os dentinhos pra fora… ratinha… Eu sorri para ela e as pazes que nunca haviam sido desfeitas foram refeitas. Mas não estávamos namorando. É melhor assim. Melhor não namorar...


sexta-feira, 4 de março de 2016

Quanto custa?



O menino chega na banca de jornal e pergunta, apontando para a barra de chocolate:

- Quanto custa?

- Três reais. - responde o jornaleiro. O garotinho olha para as moedas na mão.

- Tó! - Diz entregando três moedas de cinquenta centavos ao vendedor.

- Aí não tem três reais.

- Tem sim!

- Não. Aí tem um e cinquenta.

- Mas tem três moedas…

- Só que são três moedas de cinquenta centavos, menino. Não sabe fazer conta não?

O menino fica zangado. Aponta para um pacotinho de balas.

- Quanto custa?

- Dois.

O menino fica pensativo.

- Faz por três moedas de cinquenta?

- Não.

- Ah faz, vai…

- O menino, não é não!

O rapazinho abaixa a cabeça e aperta as moedas na mão. Aponta para um outro pacotinho de balas.

- Quanto custa?

O jornaleiro respira fundo.

- Dois e cinquenta.

- Faz mais barato?

- Menino, não! Com um e cinquenta te vendo dez balas dessas aqui. - E aponta com o dedo.

- Nossa, tá caro, né?

- É.

- Vende quinze?

- Não. Vendo dez.

- Mas tá muito caro. O que mais você vende?

O jornaleiro dá o troco a uma senhora que pagava por sua revista e em seguida diz:

- Que dá para você comprar com essas moedas?

- Claro, né?

Olhando bravo, o jornaleiro diz:

- Só as balas.

- Mas… só aquelas? - E aponta.

- Sim. dez delas. Vai querer?

- Faz doze?

- Dez, menino.

O menino para e pensa. Vê então o pacotinho de figurinhas do brasileirão. Aponta.

- Quanto custa?

- Dois e cinquenta moleque.

- Não dá pra levar um pacotinho, né?

- Não menino, não dá.

O menino pensa novamente, olha as balas… Olha as figurinhas e tem uma ideia.

- O senhor me empresta um real?

- Mas menino, claro que não!

Abaixa a cabeça novamente. Fica pensando. Olha novamente para a barrinha de chocolate. Aponta.

- Quanto custa mesmo?

O jornaleiro respira fundo.

- Três reais, moleque.

O menino olha as moedas, sacode os bolsos, mas nada…

- Posso ficar devendo?

- Não.

- E por que?

- Não faço fiado.

O menino dá de ombros. Mostra a mão com as moedas para o jornaleiro.

- Tó.

- Vai levar as balas?

- Vou.

O jornaleiro separa dez balas no balcão.

- Pode pegar.

O menino pega cinco em uma mão e cinco em outra.

- Obrigado. - O menino diz e sai da banca. Na frente está um menino, de rua. Pedinte.

- Dá uma bala aí. - Ele diz para o menino. Ele olha para uma mão, olha para outra e aponta com uma mão para o menino de rua.

- Tó.

Abre a mão e solta as balas na mão do menino. Guarda as outras no bolso e sai andando para um lado. O menino de rua pega uma para chupar e guarda as outras.

- Valeu mano!

O jornaleiro sorri e guarda as moedas.



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Ansiedade



“pã-pã-pã-pã-Pã-Pã-PÃ-PÃ-PÃ-PÃ-PÃÃ-PÃÃ-PÃÃÃ-PÃÃÃÃ-PÃ...”
“PACK”

Carlos bateu forte no despertador. “Cinco e quarenta e quatro”, pensou ele… Levantou apressado. “Primeiro dia no trampo novo!” Havia ficado quase quatro meses desempregado e ia começar hoje. mal podia acreditar. Era programador “Boa área, bons salários”, lhe haviam dito… Mas para seu azar, tudo correu errado na sua vida. Os gêmeos vieram e ele teve que correr de projeto em projeto, emprego em emprego. Na última empresa parecia que ia tudo bem, até que veio a crise. Foi mandado embora logo na primeira leva. Se consolou quando soube que outros companheiros também saíram. Mas agora, quatro meses depois, teve que aceitar um trabalho como analista programador júnior, reduzindo quase pela metade o salário da última empresa. E hoje era o grande dia. Entrou no banho correndo, pensando em tudo isso. Escovou os dentes, se vestiu. Camisa surrada, calça jeans e sapatenis.

Desceu e terminou de caminhar. O dia apenas amanhecia, mas ele nem notou. Chegou até o prédio do escritório e olhou o relógio: seis horas. Achou muito estranho. Deveria chegar às sete… conferiu o relógio de pulso: sete horas. Foi até a portaria. Somente o segurança no local. Perguntou as horas por conferir e ele disse: “cinco e cinquenta e oito.” Abismado, Carlos disse: “Como assim? Seu relógio deve estar errado…” E o segurança, com um sorriso no rosto, respondeu: “Impossível! Acabei de ajustar para o horário de verão…” Então, Carlos entendeu tudo… Saiu e foi até uma padaria que estava abrindo. Pediu uma média e um pão na chapa e se sentou numa mesinha livre para tomar café, rindo à toa e ajustando o relógio.

...Começou a ouvir, então um barulho… O movimento da padaria… Piscou uma, duas vezes e despertou. Havia cochilado! Eram sete e vinte e cinco e uma fila grande para pagar a conta. Pagou e correu. Chegou no prédio novamente às sete e quarenta, atrasado e com cara de sono. Ao chegar, o mesmo segurança… e mais ninguém! “Senhor… tudo bem?”, perguntou o segurança para Carlos que, apressando-se, disse: “Venho para a empresa Katnos, quinto piso, e…”, o segurança começou a rir e lhe disse: “Volte amanhã, senhor”. Carlos ficou estupefato. Como assim voltar amanhã. Foi ficando vermelho de raiva e já ia xingar o segurança quando seu celular tocou. Levantou a mão para o segurança em sinal de “espere” e atendeu, pois viu que era sua esposa. “Alô, amor, to com um problema aqui no escritório e…”, mas foi interrompido pela esposa do outro lado: “Amor, como assim escritório? Acordei e achei que você tinha ido comprar pão…” Ele já estava ficando doido. “Amor… eu vim trabalhar e tem algo muito estranho aqui…” A esposa respirou fundo e começou a rir, fazendo com que ele ficasse mais nervoso. Ia começar a gritar de vez, estava prestes a explodir, quando ela disse baixinho, o mais carinhoso que podia: “Amorzinho. Hoje é Domingo! Quando estiver voltando, passa na padaria e traz pão, ok? Beijos…”

Carlos pediu desculpas ao segurança que não se aguentava de rir e na volta passou na padaria e tomou o ônibus para casa...



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O Último Cigarro



Na varanda, acendi o cigarro. Era tarde da noite, talvez já fosse de madrugada. O interior escuro de meu apartamento atrás de mim e uma lua, bonita, quase cheia no céu. Apesar de estar sozinho agora, não conseguia mais fumar em casa. Hábito dos últimos vinte e dois anos, uma esposa, três filhos e dois cachorros, todos com algum tipo de aversão ao cheiro do cigarro. Sorri ao lembrar que cheguei a passar cinco meses sem fumar. Mas tive que voltar. Precisava dessa desculpa, dessa companhia insólita, desse espaço só para mim. O cigarro, ao afastar a todos, me transportava para mim mesmo. Dei uma tragada, olhei para traz e lá estava meu computador, outro companheiro da minha solidão.

Na vida virtual eu tinha um bom emprego em uma boa empresa, diferente da minha vida real onde não me conformava em ter que fazer o que fazia. E o que fazia mesmo? Ah sim, registrar notas fiscais de produtos, garantir que estes seriam colocados na prateleira correta no estoque, melhorar os processos do almoxarifado e catalogar cada um deles no sistema. Até tinha descoberto uma forma de melhorar o sistema. Consegui por em prática esse projeto e, em pouco tempo, me promoveram a coordenador onde eu tinha pessoas que passaram a fazer o que eu fazia antes e eu as olhava fazer, garantindo que fizessem seu trabalho da melhor forma possível. Mas era em uma multinacional! Em algum lugar eu escutei que deveria dedicar-me a trabalhos tais que me tornasse respeitável e útil à humanidade. Não conseguia entender como que ajudar a indiretamente empilhar caixas de produtos e dizer para um sistema que uma camiseta branca é “white” poderia me fazer respeitável ou útil. Era uma hipocrisia muito grande para que eu conseguisse aceitar.

Ainda no mundo virtual, tinha dois filhos lindos. Na prática, já faziam meses que nem Alberto nem Lucas me ligavam e eu, de tanto ligar, cansei. Alberto, o mais velho, já tinha esposa e morava na Lapa, perto do meu trabalho, mas longe do meu caminho, então nunca passei lá. Nunca fui visitá-lo em sua casa. Na última vez que nos falamos, a uns quatro meses, sua esposa ia se formar. Sei que ela se formou por que fiz questão de colocar um “gostei” no álbum de formatura no facebook, mas não escrevi nem parabéns. Quanto a Lucas, esse morava em Campinas e estava numa república na UNICAMP. Estudava o último ou penúltimo semestre de ciências sociais e dizia que queria ser político. Tinha vindo me visitar no começo do ano, e me ligou tem uns dois meses. Perguntou se eu estava bem e pediu dinheiro para sei-lá-o-que da faculdade. Transferi para sua conta, orgulhoso de poder ajudar meu filho, no dia seguinte. Mas a verdade é que o único filho que eu visitava com certa frequência era Miguel. Ele sempre teria os mesmos catorze anos. Estaria sempre deitado, descansando. Não tinha mais fotos em facebook ou instagram, não era mais visto por aí no mundo virtual. No fundo, mesmo não estando mais aqui, ele era o mais real que existia perto de mim. Na morte fria abaixo da lápide não havia a hipocrisia dos sorrisos mundanos. Era o que era e ponto.

Dei mais uma tragada no cigarro, virando-me para a sacada, apoiando-me no parapeito. Lembrei de Rafaela, minha esposa… ex-esposa, e ri. Em nossas fotos, elogiadas, somos civilizados e compartilhamos momentos felizes ao lado de nossos filhos. O último havia sido o natal do ano passado em que acabei indo passar com ela, suas irmãs e sua mãe para poder estar um pouco com meus filhos. As fotos são lindas. Todos perto da árvore, abrindo presentes, abraçando-se e com chapéus de papai noel na cabeça. O álbum ficou tão legal que ninguém se deu em conta que nas fotos tiradas após as onze da noite eu já não estava mais lá. Teve até um amigo meu do serviço que colocou “gostei” em uma dessas fotos sem nem se dar em conta que eu não aparecia nela. Me lembro como se fosse agora. A dona Maria Clara, mãe da Rafaela, dizendo para a Marina, sua outra filha, irmã mais nova da minha es… ex-esposa: “Se esse traste aí não tivesse matado o Miguel, ele estaria aqui conosco. Nem se separado teriam…” Juro que tentei surtar, tentei gritar, espernear, ir de encontro com aquela velha louca e dizer um monte de coisas, mas a verdade é que olhei para Rafaela que tinha os olhos molhados e me segurei. Alberto não escutou, ainda bem! Ele sempre foi o mais esquentado. E Lucas correu para segurar a mão de sua mãe. Eu? Ah! Minha experiência profissional me ajudou nesse momento… “Era apenas mais uma caixa a empilhar, mais um produto a classificar e guardar em alguma prateleira.” Me levantei, fui até Rafaela e lhe disse que o restante de meus presentes estavam marcados com nomes, que ela fizesse o favor de entregar. Saí, entrei em meu monza velho e voltei para casa. Acho que fumei uns três cigarros no caminho da Vila Alpina até o Tatuapé. Nem me dei em conta de chegar em casa e automaticamente ligar a tv e pegar uma latinha na geladeira. Depois da sétima cerveja e da televisão passando um monte de coisas sem sentido, adormeci no sofá e, para não ter um segundo problema desses em menos de uma semana, me coloquei à disposição para trabalhar no plantão da véspera de ano novo.

Mais um trago e o cigarro estava na metade. Bati as cinzas ao vento e olhei o condomínio em que morava. Fiquei imaginando se Miguel teria sofrido ao cair. Ah, eu daria de tudo para estar com ele nesse momento. O teria segurado forte e gritado com ele, teria trazido ele de volta de alguma forma. Depois da reforma no apartamento, não recolocamos as grades. Todos já estavam grandes. Miguel já tinha doze e não era mais uma criança. A verdade é que aquelas grades atrapalhavam a vista e nem Rafaela nem eu as queríamos mais. Já nos sentíamos libertando-nos do fardo de pais. Miguel não havia sido planejado e devo confessar que não queríamos que ele tivesse vindo. Dois já haviam sido suficientes. Porém, assim que o vi quando a enfermeira me chamou no hospital, me apaixonei por ele. “Valeria a pena”, pensei naquele momento. Tentamos dar para ele mais que os outros tiveram. Melhor escola, melhores brinquedos, melhores passeios, melhores condições. Mas não bastou. Sem explicação, sem foto, sem sinais de depressão ou distimia, sem nenhuma tristeza ou solidão aparente, numa tarde de sol, quando sua mãe tinha ido ao mercado, ele chegou da escola, largou a mochila no meio da sala e pulou janela abaixo. O seu Carlos, porteiro aqui do prédio, me ligou dizendo que eu tinha que ir para casa por que “tinha um problema.” Ele não me disse na hora, entendo suas razões, mas saí correndo ainda assim, angustiado, pensando que algo deveria haver passado com Rafaela. Nem avisei ninguém no escritório e também ninguém me ligou. Depois de mais de duas horas, um ônibus, um trem, um metrô, vinte e cinco ligações perdidas no meu celular e uma baita dor de cabeça, desci na estação Tatuapé do metrô e parei para comprar cigarros antes de caminhar até em casa. No bar, estava passando um desses programas sensacionalistas de meio de tarde e a chamada dizia tudo: “Garoto se joga do décimo andar de prédio no Tatuapé em São Paulo.” Paguei o cigarro e saí, escutando o apresentador dizer algo como “...é uma barbaridade esses tempos em que vivemos…” Acendi um cigarro e caminhei tentando imaginar o sofrimento daquela família quando após algumas quadras, me deparo com polícia e repórteres em frente ao meu condomínio. Vários vizinhos conversando e, ao me verem, saíram do caminho abaixando suas cabeças. Estava me encaminhando para a portaria do prédio quando vi o Carlão apontando para mim enquanto se dirigia ao policial. Ele veio em minha direção e eu comecei a tremer. “Senhor Ricardo?”, “Sim”, respondi. “Venha comigo por favor.”

O resto foi um borrão. Fui interrogado, sedado, interrogado novamente e sedado outra vez. Meu filho foi enterrado no cemitério da Quarta Parada no dia seguinte. Não pude estar presente. Não pude consolar minha esposa que havia ido antes, sem mim, voltou antes de mim e, quando retornei ao que antes era nosso lar, já não estava. Ninguém me explicou, ninguém me consolou, ninguém esteve comigo quando fui chorar no quarto do Miguel, ninguém veio me abraçar. A única ligação de consolo que recebi foi do Marcos, meu chefe, dizendo que tomasse o tempo necessário antes de voltar ao trabalho. Dois dias depois, fui até o colégio do Miguel, perguntar se tinham alguma ideia do que tinha acontecido, mas a diretora só me disse que já tinha informado à polícia e à Rafaela tudo que teria a informar.

A angústia voltava a mim, se repetia como naqueles dias. Dei mais uma tragada no cigarro e limpei os olhos na manga da camisa. Já estava acabando, faltava pouco para o filtro. Em algum momento daquela semana absurda, tomei coragem e fui até a casa da dona Maria Clara. Rafaela me recebeu na porta. Perguntei o que teria acontecido e ela disse o que eu não queria ouvir: “Ele te ouviu. Ele ouviu quando você me disse que, se não fosse ele, poderíamos estar viajando e nos divertindo.” Tinha sido uma discussão no dia anterior à morte de Miguel. Eu estava tentando convencê-la a irmos viajar para o exterior. Sair do país. Eu já estava com as segundas férias por vencer. Mas ela dizia que não dava, que tínhamos que pagar as contas, a escola de um, os custos com a universidade do outro, e não me contive. Tudo aquilo que havia ficado guardado veio a tona. Miguel estava em seu quarto estudando e eu tive que dizer. Tinha que tirar aquilo de mim. Depois saí, fui tomar uma cerveja num bar e quando voltei, todos estavam dormindo. Quando Rafaela me disse isso na porta da casa de sua mãe, travei. Saíram lágrimas de meus olhos como nunca antes haviam saído. Me afastei dali e não olhei para trás. Na semana seguinte voltei a trabalhar, em duas semanas chegaram os papeis do divórcio, que assinei sem problemas. A casa seria dividida quando eu me mudasse mas me acomodei e não mudei. Não respondi às mensagens de luto e condolências no facebook, mas fiz questão de deletar uma a uma as fotos de meu filho mais novo. Não que não quisesse sentir sua presença, mas não queria lembrar-me mais do que aconteceu. Desse dia em diante, nunca mais a tristeza me abandonou. Larguei o luto, mas o luto nunca me deixou. Se tornou minha nova esposa e companheira. Somente depois de dois meses é que tive coragem de pegar a mochila do Miguel que ainda estava jogada no meio da sala, mas não a abri. Apenas levei até a lixeira e a joguei fora.

Outro trago no cigarro. Já sentia os dedos quentes. Não queria que ele acabasse, mas isso era inevitável. Inevitável como o tempo, como o dia, como a noite, mas não como a morte de Miguel. Esta poderia ter sido evitada. Repetia para mim mesmo que foram todos injustos e que eu não tinha culpa, mas a verdade era que me sentia culpado e não me sentia vítima da situação mas sim pagando por um mal que havia cometido. Quando me chamaram para a noite de Natal no ano passado, quis crer que queriam voltar a se aproximar de mim, quis acreditar que tudo voltaria a ser como antes. Comprei um belo vestido de flores para minha… para a Rafaela, busquei descobrir de que banda o Lucas gostava e lhe comprei um CD, também soube que o Alberto tinha que trocar de relógio e parcelei um em dez vezes no cartão. Queria que tudo fosse mágico, que tudo fosse especial. Até um presente bacana para a mãe da Rafaela eu comprei. Todos estavam felizes, mas faltava algo, faltava alguém. Na verdade a dona Clara somente externou o sentimento de todos ali presentes. Ela não tem culpa nenhuma. Houve um dia entre o mês da tristeza e a semana das desilusões, em que saí com um pessoal do trabalho para beber, coisa que a muito tempo não fazia. Havia uma mulher, uns vinte anos mais nova, que não parava de me olhar e de se insinuar para mim. Pensei que poderia ser feliz novamente. Cheguei a fantasiar, coisa que desde antes de casar-me não fazia. Lembrei-me de meu casamento. Bonito, é verdade. Era apaixonado por Rafaela e seria até o final. Duas letras “R” sobrepostas, indicando Rafaela e Ricardo substituíram os tradicionais noivinhos sobre o bolo. Esse era nosso símbolo. Ri com o cigarro na mão lembrando-me disso, assim como ri com o copo na mão enquanto a moça me olhava devolvendo o risinho, pensando que era por ela que a expressão de meus lábios se fazia feliz. Não ficamos juntos. Bruscamente me lembrei da mãe de meus filhos triste, inconsolável, chorando. Me levantei, deixei minha parte da conta na mesa e saí andando, transformando o sorriso sincero em um falso que tinha guardado para essas ocasiões, dizendo que tinha um compromisso e tinha que sair. Foi então que me dei em conta. Já não aceitava mais a felicidade em meu peito, nem a liberdade ou a alegria.

Terminei o cigarro e joguei a bituca fora. A observei voar pelo ar até não vê-la mais. Então, subi no parapeito olhando para o horizonte como quem quer ver mais longe, dei um passo adiante com o pé esquerdo e deixei o pé direito escorregar para frente. Não gritei, não chorei, não acenei, nem busquei parar. Senti um desespero profundo enquanto atravessava aqueles primeiro cinco andares mas, depois disso, me senti anestesiado. Então, subitamente, não senti mais nada.