segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Vergonha e Culpa
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Heróis
segunda-feira, 20 de julho de 2026
O Fio
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Quando eu partir
segunda-feira, 22 de junho de 2026
O Terceiro Elemento
terça-feira, 7 de fevereiro de 2023
Vidas
terça-feira, 24 de janeiro de 2023
Sem ideias
quinta-feira, 20 de outubro de 2022
Humanos
terça-feira, 20 de setembro de 2022
Um sonho
Inicialmente me senti absorto com uma sufocante sensação de estar preso, atado por tiras invisíveis de cordões finos e resistentes que apertavam mais a cada tentativa, a cada esforço, a cada vez que eu tentava de alguma forma me mexer. Cada desespero me levava a mais dor. Minhas pernas, minha barriga, meus braços, pescoço, cabeça, todo meu corpo parecia débil e queimava de forma dilacerante. Porém eu não conseguia parar de tentar. Era como a dor viciante de coçar a cabeça com piolhos ou de mexer numa ferida em cicatrização. A dor consumia e agradava ao mesmo tempo, acompanhada de um medo absurdo de que seu parasse de tentar escapar, a própria dor que eu mesmo me provocava viria de forma derradeira e acabaria comigo de uma só vez. “Adiante!”, pensava com uma arrogância demente de quem não tem mais nada a perder nem a ganhar. Somente o sofrimento pelo sofrimento até que, em dado instante que poderia muito bem ser o último, me vi arrancado, puxado de dentro de mim, com a mais terrível sensação de escapar da minha carne. Atravessei as cordas como se eu fosse feito de manteiga, sentindo os cortes em cada músculo, nervo, tendão e ossos.
Fiquei dependurado no ar, de costas, braços e pernas soltas, cabeça pendendo para trás e barriga para cima. Senti então meu sangue, viscoso, fétido, escorrendo por todo meu corpo e me deixando. Não conseguia me mexer, mas aos poucos sentia a dor saindo de mim. Quando a última gota saiu do meu corpo me senti leve. Mexi meus dedos dos pés e depois os pés e imitei o movimento com as mãos. Ergui levemente a cabeça só para sentir agora, ao invés de dor, uma angústia, dentro de mim. Virei no ar de uma só vez somente para ver meu corpo abatido logo abaixo de mim. Ele não parecia vivo. Escorriam sangue dos olhos, nariz, boca e orelhas e o odor era insuportável. Mistura de suor, sangue, urina e fezes. Não havia nada de belo naquele reflexo logo abaixo de mim. Era uma mórbida carcaça sem vida que causava uma sensação forte de repulsa.
Tentei me levantar e me colocar em posição de caminhar, sem sucesso. Depois, tentei me mover empurrando o ar de alguma forma e percebi que nem me virar conseguia mais. Cansei de tanto tentar até que comecei a me sentir empurrado para baixo, de volta àquele corpo vazio. Não queria retornar. Não queria voltar para aquele mulambo, para aquele saco podre, para aquilo! Mas não tinha escolha. Voltei sentindo a mesma dor de quando fui arrancado. Só que agora era pior. Não havia esperança de algo novo por que eu já sabia o que me esperava: aquela prisão nefasta daquele corpo feito de morte, que consome a morte, que vive para aguardar e causar o próprio desfalecimento, o próprio apodrecimento.
Acordei de sobressalto e me sentei. Senti um alívio e depois uma tristeza profunda e me levantei. Outro dia se iniciava.
quinta-feira, 25 de agosto de 2022
Minha alma se entristece
quando vê a lua cheia no céu,
e nota que este dossel
nem a todos enternece.
Minha alma se entristece
ao sentir do Sol calor
quando vejo com rubor
que nem todos ele aquece.
Minha alma se entristece
com o frio e a solidão,
desespero e aflição
que o ser humano padece.
O indivíduo que amanhece
todo dia para lutar
para viver e sonhar,
e ao final dele adormece.
Quase, quase se esquece
da fome, sede, tristeza
que a vida dá com crueza
para quem se compadece
Créditos da Imagem: Minuto Psicologia
quinta-feira, 11 de agosto de 2022
Morrer
Créditos da imagem: Revista Bula
quinta-feira, 21 de outubro de 2021
Sonhos
sexta-feira, 25 de dezembro de 2020
Da Hipocrisia
Eu sempre pensei que a palavra hipocrisia teria alguma relação com cavalo por causa do suposto prefixo "hipo". São tantas palavras que começam com esse prefixo e que tem relação com o cavalo. Hipopótamo (que seria o cavalo do rio), hipocampus (cavalo-monstro marinho), hipogrifo (cavalo-grifo - parte cavalo, parte leão e parte águia). Então, tentando encaixar esse suposto conhecimento com o sentido conotativo (e até denotativo) atual da palavra, eu ficava imaginando que deveria ser algo como "agir como o cavalo". Não, isso não fazia sentido mas minha mente se deleitava com esse exercício de raciocínio meio ilógico de relacionar uns conhecimentos com outros.
Aí, entendendo um pouco de química, percebi que o prefixo "hipo" também tinha a noção de algo inferior ou menor. Inclusive, essa definição está no dicionário. Por exemplo, o ácido hiposulfuroso tem esse nome por ter uma redução no número de oxigênios, assim como o ácido hipoclososo, o ácido hipofosforoso e o ácido hipobromoso. Na medicina também esse prefixo tem essa finalidade... O hipotálamo fica sob o tálamo, a hipófise é chamada assim por crescer sob o encéfalo. Também em outros termos como o hipotireoidismo que é a queda na produção dos hormônios da tireóide e a hipoglicemia que é um distúrbio provocado pela baixa na concentração de glicose no sangue.
Logo comecei a pensar que talvez hipocrisia tivesse mais a ver com o hipo que vem do hypo grego (baixa ou inferioridade) do que com o ippos (cavalo). Parece fazer sentido, não? Mas aí teria um problema: se o "hipo" de "hipocrisia" fosse um desses prefixos, teria que haver um significado para "crisia". Mas o único significado que encontrei para "crísis" foi "a designação científica da vespa doirada". Se fosse para inventar um monstro para algum jogo, poderia criar o Hipocrisis que seria meio cavalo meio vespa doirada... Seria uma besta intrigante com forma de cavalo, cara e asa de vespa. Imagine o som desse animal galopando como um cavalo e zunindo como uma vespa. Teria uma grande atração por fontes de luz e se alimentaria de outros insetos, mas se reproduziria sexualmente e daria a luz a potros-larvas.
Mas ainda não entendia o significado da palavra "hipocrisia". Somente então fui pesquisar a palavra inteira e então entendi que esse era o nome dado aos atores gregos. A arte da encenação para entretenimento era conhecida como "hupókrisis". Faz todo sentido. Os atores fingem ser quem não são mas não com a intenção de enganar e sim de divertir, servir ao público com sua arte. O próprio termo grego "hypokrínomai" significa "diálogo" e parece ter muito a ver com o significado original.
Então, como foi que essa palavra que estava associada à arte do palco e da diversão se tornou assim com um sentido tão horrendo no dia de hoje? Não se sabe. A palavra como tal na língua portuguesa provavelmente já tenha o mesmo significado desde o século XIV. Há quem creia que o sentido tenha a ver com a interpretação dos sonhos na antiguidade e talvez por isso que carregue consigo a noção de dissimulação ou charlatanismo. Mas isso não é provado. E talvez nem mesmo provável pois se os gregos usavam mesmo essa palavra para designar a nobre arte da atuação, dificilmente a usariam também para algo pejorativo.
Porém, atualmente o conceito de hipocrisia é talvez um dos piores e mais comuns na nossa sociedade. É aquele que fala sem praticar o que fala, aquele que diz algo como certo mas na hora de agir não consegue. É aquele que não tem honra nenhuma e em quem não se pode confiar pois aquilo que ele fala não se reflete em suas ações. É aquele que atua sim mas em sua vida, usando máscaras diárias que não condizem em nada com a realidade que se vive. É o pai que diz amar seus filhos mas prefere ficar no trabalho ao invés de ir para casa; é a mãe que se esconde atrás das verdadeiras desculpas da correria do dia-a-dia para explicar suas falhas na maternidade; é o padre que prega no sermão aquilo que distorce para enquadrar sua falsa fé em seu cotidiano; é o político que promete e não cumpre; o médico que receita algo para virose quando ele nem sabe o que o paciente tem; é o professor que ensina para alunos que não aprendem nada e sai da escola dizendo "pelo menos eu fiz a minha parte".
Talvez fosse importante encontrar essa origem da palavra simplesmente para entender a origem de uma de nossas maiores enfermidades: a pandemia da hipocrisia. Mas não. A origem da palavra só fala de encenar e de agir como outra pessoa para entreter. Ela não fala nada sobre como usamos a palavra hoje. Imagino que esse conceito seja algo que se tornou uma necessidade de ser descrita e, como em tantos outros casos, "tomamos emprestado" um termo para pervertê-lo e torná-lo algo podre. Talvez, até mesmo nisso sejamos hipócritas.
Como um "bônus", o link da imagem (e os créditos dela também) é de um artigo em inglês sobre como a hipocrisia é o ato de fazer-se sentir melhor do que se merece...
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
Natureza humana
Crédito da ilustração: Vector Graphics
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
Corroído
É prisão, falsidade, estremecimento,
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
Luz
Eis que um dia surgiu por dentre as carcaças de concreto
Uma mulher vestida da noite, das cinzas e do pó
Levava consigo consigo um livro sobre o que é certo,
um manto simples, um rosto frágil e uma garganta em nó.
Trazia também uma luz. Não qualquer luz, decerto,
mas sim uma que tinha um brilho como de um faraó.
A todos luzia não importando se longe ou perto,
Produzinhdo uma sensação de pureza, entendimento e dó.
Adentrou pelas vias e pessoas, como se em um deserto,
Mostrando-se mulher completa: filha, neta, mãe, esposa, avó,
Sua forma resplandecia a cada passo dado, a cada peito aberto
E sua luz bramia em meio a todos, jorrando bênçãos e amor
Em meio ao caos, trouxe ordem e ao preso tornou liberto.
Parou doenças com sua luz, e seu caminhar agrandou até o menor.
Expulsou demônios, alegrou aos tristes e germinou o que era infértil.
Mostrou verdades e proclamou justiças, curou feridas e cólicas.
Ao final, prostou-se na praça e com seu manto se cobriu.
No começo, todos olhavam em respeito e amor aquela figura
descansando, animando-se e vislumbrando como a uma chuva de abril,
e coletando sustendo e alegria, paz e sossego de sua luz pura.
Aos poucos veio, então, a sede e fez aos primeiros buscar cantil.
Então, pungente veio a fome, levar aos seguintes como fúria.
Outros e foram por descrenças, desavenças e sentimento infantil,
e depois por inveja, mentira e toda a forma de injúria.
Passado não muito tempo restou uma menina apenas que não partiu.
Pequena, frágil singela e maltrapilha, não queria nem paz nem cura,
nem nada do mundo dos demônios ou dos anjos, nem do bom nem do vil.
Seu desejo pertencia ao ontem, ao hoje e ao amanhã, ao novo e ao senil.
Lendo seu coração, seu espírito e sua mente, a mulher se levantou e sorriu
E a frágil menina se fortaleceu e sua aura ficou de uma vez pura.
Resplandeceu e se acercou da mulher que lhe entregou sua luz e sumiu.
A menina então adentrou à própria luz e caminhou pelo mundo segura.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Ciclo
Vezes me sinto como entre o túmulo
Sombrio da noite densa, fundo, tétrico
E um nascedouro de bebês coléricos
em fome ávida de vida e rumo.
Nessa divina epifania viva
Sinto que sou como espada em forja,
Entre martelo e bigorna vívida,
resplandescendo com pancada forte.
Viver, nascer, morrer... Ultrajes réplicas
de correntezas somos! Vida, rápida e
vã, melancólica e traiçoeira réptil!
Porém, sua íntima amiga, morte,
tampouco atrai. Com artifícios débeis
sigo no ciclo desses dois consortes.
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
Por Mais
Por mais que plantes
Sempre há onde colher
Por mais que finjas
Sempre há o desmentir
Por mais que pressintas
Sempre há o imprevisto
Por mais que ponhas
Sempre haverá oposição
Por mais abjeto
Sempre há quem goste
Por mais incerto
Sempre há a fé
Por mais duvidoso
Sempre haverá certeza
Por mais icônico
Sempre há o ridículo
Por mais que morras
Sempre haverá a vida
Por mais que penses
Sempre haverá a paixão
Por mais que erres
Sempre há onde acertar
Por mais que sejas
Sempre há o “Ser”
Por mais que comas
Sempre haverá fome
Por mais que busques
Sempre haverá o que buscar
Por mais que percas
Sempre também ganharás
Pois a vida é perda e ganho
Por mais que se esperar.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Erro Meu
Um dia pensei ser o amor luz e magia
E quis ter um só pra mim, sem compartir!
Sonhei eu, seria ele sem fim, sem algia,
Sem dor ou desterro, somente sentir.
Sonhando vivi uma vida fingida,
Com falsa alegria, e um falso existir.
E nessa história com zelo erigida,
Vivi em solidão em meio ao ressentir.
Em tempo larguei essa vida sofrida
Viajei, conheci, me entreguei a entender-me.
Ao invés de amar, busquei curar a ferida.
Andei, encontrei, deixei a vida vencer.
E sôfrego, vívido, só, à deriva
Achei o que queria: puro e simples bem querer.
sexta-feira, 1 de abril de 2016
Se...
Se a cabeça não doesse tanto
Se minha perna não fosse tão curta
Se não houvesse contido meu pranto
Se minha vista não fosse tão turva
Se eu houvesse saído do canto
Se ao mudar eu seguisse a curva
Se minha noite tivesse acalanto
Se eu não fosse aquele que surta
Se diferente pensasse em vida
Se eu pudesse fazer outra vez
Não deixaria minha alma detida
Libertaria do lobo de vez
E trataria deixá-la ungida
Sem a prisão de quiçá ou talvez












