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quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Numa formatura...



“Numa cerimônia de graduação…”
Cerimonialista: “E agora, a paraninfa da turma, Deisiane Silva”
[Aplausos]

A maior emoção da minha vida foi quando eu olhei para aquele quadro gigante formado por um monte folhas de sulfite coladas lado a lado e lá, do lado do número doze eu li “Deisiane Maria Ferreira Silva”. Era eu! Aprovada para a Universidade de Medicina da USP. Tinha que avisar minha mãe urgentemente. Lembro que naquele dia eu tomei o ônibus e fui correndo. Me lembro que enquanto ia na condução sentido São Mateus, em meio à felicidade do momento, me vi lembrando-me do dia em que tudo isso começou.

Minha mãe trabalhava no centro de coleta seletiva na Avenida Sapopemba. Ela ajudava na coleta e seleção de lixo reciclável. Nesse dia, quando cheguei da escola, havia uma mochila novinha na minha cama. Cadernos, livros, etc. Eu nunca tinha tido isso. Tinha os da prefeitura que chegavam no meio do ano, quando chegavam. E nesse ano, já era agosto e nada. Seguia usando os cadernos do ano anterior para escrever. Eu tinha treze anos e estudar não era exatamente a minha prioridade nessa época. Mas a mochila era bonita! Abri e vi cadernos seminovos e livros em bom estado. Nem eram livros do que eu estava estudando, mas eram livros novos e pareciam ser para mim. Minha mãe então veio e me explicou que alguém havia jogado essa mochila no lixo e apareceu lá no centro de reciclagem. Ela falou com a supervisora dela que não viu problemas em trazer para casa. Agradeci minha mãe com um abraço e um beijo. A vida não foi fácil para ela. Sabe, sempre fomos gente honesta, trabalhadora, mas depois que meu pai morreu, minha mãe tinha ficado num estado de depressão profunda. Ela estava grávida, perdeu o filho e a capacidade de ter filhos também. Quando voltou ao trabalho, lhe deram férias e ao voltar das férias a demitiram. Tivemos que largar tudo que já havíamos conquistado e recomeçar a vida na favela… Mas isso eu só sabia pelas histórias. Quando meu pai morreu eu tinha menos de dois anos de vida. Quando minha mãe saiu, eu peguei o material e comecei a olhar, e folhear. De repente, um papel caiu do caderno. Estava dobrado, em três partes, como uma carta a ser colocada em um envelope. E ela me marcou profundamente. Essa carta eu gostaria de compartilhar com vocês hoje:


“

Mãe e Pai, me desculpem. Desculpem-me por haver nascido e por haver sido um problema para todos vocês por tanto tempo. Mãe, perdoe a insensatez de ter saído de seu útero vivo. Pai, perdoe a falta de senso de haver sido este espermatozoide a ter fecundado o óvulo da mamãe. Eu não queria destruir a vida ou os sonhos de vocês. Não tinha essa intenção. Eu só queria existir e nascer. Achei, por um tempo, que poderia sonhar grande. Ter uma profissão que ajudasse as pessoas. Olhei para meu mundo e um dia, quando você pai me levou ao hospital naquela vez em que eu estava gripado, vi aquele senhor de branco perguntando coisas, me analisando e, como que num passe de mágica, ele disse o que eu tinha e como eu melhoraria. Quis ser como ele. Depois, descobri que ele era médico. Médico! Palavra bonita. Doutor é como todos lhe chamam. Queria ser isso. Mas não poderei. Como foi que me permiti sonhar tanto? Como uma criatura como eu que não deveria nem ter nascido poderia pensar em ajudar outros a viver? Como alguém como eu, de existência questionável poderia ajudar outros a existir? Não! Isso não é nem nunca será para mim. Eu tenho destino certo e já está decidido. Quando vocês lerem essa carta, eu já estarei morto. Vou saltar e voar até morrer de encontro ao chão e voltarei a ser pó. O pó que nunca deveria ter deixado de ser. E vocês, então, voltarão a ser felizes. E poderão passear e viajar. E, assim, eu terei curado a vida de quem mais importa e de quem mais amo: a de vocês. Amo vocês dois!


Beijos,

Miguel.

”

(1)


Cresci e reli muitas vezes essa carta. Não sei nem procurei saber o que aconteceu com o Miguel. Realmente creio que ele se matou. Provavelmente alguma depressão por conta da briga constante dos pais, ou por qualquer outra razão relacionada a eles. Também não sei quantos anos tinha, mas a julgar pelo material na mochila, ele estava na oitava série do fundamental.

Quando era criança, Miguel passou a ser meu amigo imaginário. Conversava com ele, pedia conselhos, me revoltava, chorava e ria. Mas depois, quando cresci e analisei um pouco melhor as palavras dele, vi que, independente do que tenha acontecido, ele tinha uma vocação. Ele queria ser médico desde jovem e já entendia o que isso significava: curar pessoas. Parece óbvio, mas não é. Ele foi até às últimas consequências para tentar curar seus pais. Não sei se conseguiu. Creio que não. Mas por quem nos importamos, não medimos esforços, por mais idiotas que sejam nossas escolhas e opções, fazemos o que estiver ao nosso alcance para vê-los bem. E quando nos dizem que estudamos e nos formamos para aprender mais técnicas e nos capacitarmos para nosso futuro trabalho, eu concluo dizendo que não. Isso é só uma parte. Mas a parte mais importante, o real motivo pelo qual nos formamos médicos é para ampliarmos mais e mais a quantidade de pessoas por quem faríamos de tudo para vê-las melhor. É para entender essa empatia e passá-la adiante. 




Créditos da imagem: Alpha convites

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

O Copista - Parte II

 



Link para a parte anterior:


Eram dez horas da noite quando o “Augustus” atracou no porto de Santos. Todos os passageiros desembarcaram como loucos desesperados. Balthazar teve que esperar até que houvesse espaço para sair. A neblina da madrugada já começava a se formar quando ele desembarcou. Ao pisar fora da prancha, em terra firme e ouvir as pessoas ao seu redor falando em todo o tipo de idioma e se sentiu só. Ao mesmo tempo, lembrou de sua conversa a algumas noites. Agora começava a contar seus “mil dias”.

Como se fossem cargas, os imigrantes, como ele, eram direcionados para os trens. Escoltados por policiais e agentes portuários, em fila, a caminho da estação, os homens, mulheres, idosos e crianças iam em iguais condições. Havia um ar de cansaço e uma atmosfera de penitência naquele cais de porto. O cheiro também não ajudava: Um odor de peixe podre, excremento de burros, vômito e urina eram carregados por todo lado pela umidade do ar e pela maresia. Os sons também eram uma confusão de latidos de cães, guinchos de rato, gemidos de enfermos e palavras em muitos idiomas diferentes. Eles se confundiam com o barulho incessante de um maquinário do qual aos poucos a fila se aproximava.

Havia uma tensão no ar que não parou ao adentrar ao trem. Ouviu uma voz gritando. Não entendia o que dizia, mas parecia estar repetindo em vários idiomas. Em dado momento, disse em alemão mal falado: "Esse trem seguirá sem paradas até a estação Hospedaria dos Imigrantes. Tenham todos uma boa viagem".

Seguiu a ladainha em outros idiomas mas Balthazar, fraco e ainda meio entorpecido pela viagem, dormiu encostado em sua cadeira no trem.

Já era noite novamente quando ele acordou. Outra fila. Agora para desembarcar do trem na estação da Hospedaria. Agora, porém, os odores já não eram tão fortes. Ou talvez seu nariz já tivesse se acostumado. Ele ficou para trás e acabou sendo um dos últimos da fila. Espirrou e tossiu uma tosse feia, dessas que a gente sabe que não está bem. Sentia-se muito fraco e simplesmente, mais uma vez, fez o que fez por grande parte da vida: seguiu.

Balthazar foi hospedado em um quarto grande com beliches onde a única diferença do navio que que estava antes era que aqui não balançava muito, a não ser quando o trem passava, parecendo que ia fazer com que tudo desmoronasse. Lá ele passou suas seis noites seguintes. Ele ficou pior, mas depois veio a descobrir que era só uma gripe forte. Foi lá que ele conheceu Joachim, um alemão que havia fugido da guerra e que agora ajudava os imigrantes. Era amável e bondoso, trabalhando como enfermeiro. Balthazar poderia jurar que teve várias conversas agradáveis com ele. Mas não viria a se lembrar de nenhuma dessas conversas no futuro.

Na sexta noite, Joachim acordou o então recuperado Balthazar de seu leito com dois tapas. Assustado, ele se levantou e, na penumbra, com uma vela na mão e olhos que Balthazar poderia jurar que estavam sangrando, ele mandou que ele se vestisse. Sem protestar, ele o fez e seguiu sem palavras pelos corredores, entre camas e roncos, até a saída do alojamento. Lá chegando, notou que as costas de Joachim estavam rasgadas. Roupa e pele. Como se fossem marcas de garras. Balthazar quis perguntar mas seu interlocutor o olhou, seus olhos eram de um vermelho-sangue pulsante. Um breve momento passou e ele disse simplesmente: "Siga-me".

Eles saíram da estalagem e andaram pela penumbra da noite até um carro que estava parado a duas quadras dali. Balthazar entrou seguindo seu guia e foram conduzindo o carro pelas escuras e sombrias ruas da cidade. Em dado momento, com uma voz monótona, Joachim disse: “Nosso mestre te está designando para o bairro do Pari. Lá você encontrará trabalho no cartório próximo ao endereço em que vou te deixar. Você ficará numa pensão à rua Carnot, no quarto de número 21. Aqui estão documentos para que você possa se identificar e sua primeira tarefa”. - Ele lhe entregou um envelope. - “Passarei em seis dias para coletá-la”.

Antes que Balthazar absorvesse tudo, estava parado à porta da dita pensão com o envelope na mão e vendo o carro partir.

Na pensão, ele foi recebido por uma senhora portuguesa que se apresentou como dona Alépia. Ela o fez entrar e mostrou seu quarto. Ouviu então o barulho da chuva o que fez com que a senhora subisse rápido pelo quintal da pensão, deixando Balhtazar apenas com um candeeiro aceso na mão à porta do quarto. Aquele pequeno quarto fedido no porão tinha paredes amareladas e sujas. O encanamento dos esgotos passava descoberto pelo teto, deixando à mostra o escurecimento daqueles tubos velhos. Os sons da água escorrendo por dentro dos canos se confundiam com os sons vindos da chuva do lado de fora numa sinfonia aterradora. O corredor externo tinha um chão vermelho e uma lâmpada pendurada no teto que balançava com o vento. Já dentro do quarto vinte e um, havia um cheiro de parede mofada e de madeira velha, de frango assado velho, de suor e odores humanos velhos, de tinta nanquim nova e de sangue fresco. A mobília do extremamente apertado e claustrofóbico quarto era composta por uma cama antiga com um colchão fino e uma mesinha pequena com um banquinho.

“Copiar este texto em pele de carneiro curada, com uma pena de ganso. As partes em negro devem ser copiadas em nanquim e as partes em vermelho usando sangue comum. Todo o texto deve ser copiado durante a noite, após o último raio de sol e antes do primeiro, à luz de velas ou de candeeiro. Segue algum dinheiro para compra dos materiais necessários.”

Também havia cinco contos de réis. Balthazar retornou tudo ao envelope, colocando-o sob o candeeiro e o apagou. Soltou uma risada rouca, enfadonha, nervosa. Depois, recostou-se na cama tentando de alguma forma lembrar-se de sua família. Antes de cair no sono, chorou.


Crédito da imagem: São Paulo in Foco


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Melhor não namorar


“Felipe, sete vezes cinco”, me perguntou a professora em sua chamada oral. Sempre fui bom em cálculos mentais e a tabuada se mostrava fácil demais para mim. “trinta e cinco professora”, respondi orgulhoso. A Amanda me olhou e me senti envergonhado. Olhei para baixo, tentando parecer invisível. Não funcionou. “Carlinhos, nove vezes quatro”, e ele respondeu “trinta e seis”. Levantei os olhos e Camila agora conversava com Amanda mas ela, ainda assim, como quem percebe que está sendo observada, me olhou novamente. Um frio no estômago. “Douglas, oito vezes seis”, ouvi, mas mantive-me firme, olhando Amanda. Lembrei do dia anterior, quando ela sentou do meu lado na aula de ciências para fazer o trabalho sobre roedores. Ri ao lembrar dela pondo os dentinhos pra fora e fazendo orelhas com as mãos, imitando um ratinho. Ela sentiu alguma vergonha com meu sorriso e voltou-se para Camila novamente. “Marina, 3 vezes sete?”, “vinte e um professora”. Fiquei ali, sonhando com a menina, olhando seu rosto de lado, sua pele, seus cabelos. “Leonardo, quatro vezes seis”. O uniforme da escola ficava tão bem nela, e a mãe dela sempre colocava algum lanche gostoso pra ela trazer.

“Trinta e quatro, professora”. Um olhar em seco da professora, que repetiu a pergunta: “Camila, quatro vezes seis?”, e ela, parando de falar com a amiga, disse “vinte e quatro ‘fessora”. Foi o tempo que Amanda precisou para virar-se outra vez para mim, e colocar os dentes em forma de rato outra vez. Ri e ela correspondeu. Camila então olhou para mim e, mostrando ciúmes da amiga, a puxou pelo braço. A professora percebeu e disse “Amanda, oito vezes sete?” Era a pergunta mais temida da tabuada. Ninguém lembrava direito essa resposta. Claramente a professora estava se vingando pela desatenção das meninas. Eu fiquei pensando “cinquenta e seis, cinquenta e seis, cinquenta e seis” repetidamente, como se ela pudesse escutar meus pensamentos. Amanda, pensou um pouco e disse “cinquenta e quatro, prô Nanda!”. Vendo como fiquei preocupado, a professora deu seu golpe de misericórdia: “Felipe, oito vezes sete?” Ah… eu tinha que responder, não é mesmo? Ou deveria errar de propósito? Fiquei olhando para a professora e notei que ela sabia que eu sabia a resposta correta. Ela queria que eu respondesse.

Mas a Amanda ia me odiar depois, não ia? Ela ia se sentir humilhada por responder errado e ser eu a corrigi-la.  Mas valia nota! Não podia responder errado sabendo o certo. “Felipe?” perguntou novamente prô Nanda, olhando-me com aqueles olhos de ‘te peguei’. Tomei coragem, respirei fundo e respondi em tom de pergunta: “Cinquenta e…. cinco?” Eu sabia que essa era a resposta para qualquer pergunta, menos a que ela tinha feito… Me senti mal, estômago embrulhado… A professora ficou ali, olhando, marcou o “X” no caderno dela e virou. “Jaime, oito vezes sete?” e o Jaime respondeu sem titubear: “cinquenta e seis prô Nanda”. As perguntas continuaram, mas a ‘Mandinha não olhou mais pra mim. Fiquei chateado. 

“Fabiola, cinco vezes quatro?”, “Vinte prô”. Lembrei do aniversário de vinte anos do Gui. Gui é meu irmãozão! Foi bacana demais a festa, no último fim de semana. Ele estava com a namorada dele, a Bete, e um monte de amigos deles. Fizemos um churrasco lá em casa e eu brinquei pra caramba. Mas teve uma hora que o tio Alfredo me perguntou: “E aí, como vai sua namoradinha da escola? Como é mesmo o nome dela?” “Amanda”, respondi, “mas ela não é minha namorada!”. Ele riu e bagunçou meu cabelo, mas como explicar? Minha mãe e meu pai dizem que são namorados. Eles se beijam e se abraçam e a Amandinha e eu não fazemos isso. Já peguei na mão dela, e ela me deu um beijo na bochecha no meu aniversário, mas só isso. Meus pais também brigam e discutem, às vezes gritam e ficam sem se falar um com o outro, mas eu nunca gritei com a ‘Mandinha. Isso é feio. E se pra namorar tem que ser assim, prefiro não namorar. Não! Ela não pode ser minha namorada. Pra ser namorada tem que machucar, tem que fazer sofrer e eu não quero isso não. Eu me lembro de quando o Gui brigou com a Bete. Ele chegou chorando em casa. Eu não quero chorar.

“Felipe?” Disse a professora. Olhei para ela, que disse pausadamente, demonstrando que estava repetindo a pergunta que eu não tinha escutado: “Dezesseis dividido por quatro…” Refleti um pouco. ‘Quando é que tinham saído das contas de vezes para as de dividir?’ Respondo: “Quatro prô Nanda”. “Obrigada” responde ela. “Alessandra, quarenta e cinco por nove?” Essa era mais complicada… Tinha que lembrar da tabuada do nove… era… “cinco professora…”, respondeu Alessandra antes que eu lembrasse da resposta. A Alessandra tinha o mesmo nome da minha prima, filha da tia Carlinda. A um tempo atrás brincávamos muito juntos, antes da tia Carlinda se separar do tio João e ela ter que voltar pro interior. Minha mãe e a tia Carlinda diziam que éramos namoradinhos. Tiravam foto de nós dois com as mãos dadas e a Alessandra me abraçava e fazia um monte de poses. Era estranho, mas acho que estava perto de ser um namoro. Afinal, meus pais fazem um monte de coisas juntos e nós também. Ela vinha comigo jogar bola e eu brincava de boneca com ela. Às vezes brigávamos e nos chateávamos e minha mãe dizia “logo passa”, mas nem sempre passava logo. Tinha vez que tinha que esperar o outro dia pra brincar de novo. Mas ela não era tão engraçada como a ‘Mandinha. Aí eu percebi que a Amanda deveria ser a menina mais legal da escola. “Sérgio, sessenta e quatro dividido por oito?” O Sérgio sentava ao meu lado. Ele respondeu: “Quatro?” A professora marcou o X no caderno e disse: “Amanda?”, e ela respondeu “Oito prô Nanda” e se virou novamente para mim. Agora sem brincadeira. Era um olhar do tipo ‘viu como eu sei responder?’, e eu me envergonhei, mas, sem querer, pisquei um olho para ela e sorri. Ela ficou vermelha e virou para frente outra vez. 

Não sei o que deu em mim. A Amanda era a menina mais bonita da escola, com certeza. Podia desenhá-la de memória. Aí me dei em conta. Não éramos mesmo namorados. Meu pai nunca desenhou minha mãe, nem o Gui alguma vez desenhou a Bete. Abri o caderno e comecei. Cabelo, rosto, olhos, boca… Nariz! É… Eu não era bom desenhando… ficou horrível. Ai… Será que a gente está namorando então? Não pode ser… Namorar é ruim. Eu lembro de como a irmã mais velha da Amanda, a Vanda ficou mal quando o Miguel morreu no ano passado. Ela nem vinha pra escola, de tanto que ficou mal. Eu lembro da Amanda dizendo que ele tinha nome de anjo, mas não conseguiu voar (1). Já pensou se eu tento voar qualquer dia, como a ‘Mandinha ia sofrer? Melhor nem pensar nisso…

“Cinquenta e cinco por cinco Felipe”, “Onze prô”, respondi rapidamente. Na festa junina desse ano eu dancei com ela. A quadrilha foi bonita e o Douglas foi o noivo. A noiva foi a Camila. Como a Amanda e a Camila são muito amigas, ficamos logo atrás deles. Na hora de dançar juntinho, eu coloquei minha mão na cintura dela e viramos, voltamos e rodamos, parecia mágico. Me sentia flutuando no ar. Uma vez, escutei meu irmão dizer que a Bete fazia ele flutuar… E eles namoram… 

Fiquei pensando… Será que o Miguel e a Vanda dançavam? Será que ele pensou nela enquanto flutuava pelo ar sozinho naquele dia? Mas depois de voar, ele não voltou mais e a Vanda foi quem ficou triste… (1) a Vanda e a Amanda… Não… quase todo mundo que tinha alguma coisa a ver com ele ficou triste. Até eu fiquei meio triste… É, acho que namorar não é o melhor. A Amanda olhou para mim nesse momento em que meus pensamentos estavam longe. Olhou e pôs os dentinhos pra fora… ratinha… Eu sorri para ela e as pazes que nunca haviam sido desfeitas foram refeitas. Mas não estávamos namorando. É melhor assim. Melhor não namorar...


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Copista - Parte I

Balthazar se sentia mal. Acordara no porão do navio um pouco aturdido. Não se lembrava da última vez em que comera, tampouco da última vez em que havia tomado água. Sentiu então uma súbita vontade de vomitar, mas não saía nada. Sentia-se como se estivesse embriagado. No mesmo espaço no porão onde ele estava, havia outras seis pessoas apinhando-se em dois beliches que, sem que sua mente conseguisse compreender como, fizeram caber na estreita cabine da terceira classe. O jantar no dia anterior não havia sido servido e até agora nada de café da manhã tampouco. Sua barba estava horrenda, suas olheiras profundas e seus cabelos sebosos. Nunca havia morado em outro lugar que não em Floridsdorf; nunca havia saído de Viena; nunca havia precisado viajar de navio; nunca havia precisado fugir antes. Estava fraco, deprimido, sozinho. Sentia angústia e medo, doíam-lhe os joelhos e o peito. Tentava lembrar-se de sua mãe, só para recordar-se que ela havia morrido tragicamente dois anos antes. Seu pai havia ido à guerra vinte e poucos anos atrás e nunca retornou. Ela sofreu amargamente até seus últimos dias, pensando em como a vida poderia haver sido melhor se houvesse fugido com ele para outras terras. Mas eles não foram. Veio a guerra e ele se foi, assim como o dinheiro, a esperança e a alegria

Ele se lembrou então de sua esposa. Gertrud era jovem, pele alva, olhos grandes, brilhantes, cheios de vida. Se casaram na primavera de 1928 e no inverno de 1929 nasceu Minna, preciosa filha, linda, curiosa, de voz de cetim, cabelos ondulados e super carinhosa. Dois anos depois veio Otto, teimoso e inteligente. Passaram ainda mais quatro anos até que Robert nascera e mais quatro anos até que vieram os blindados alemães. Judeus como eram, tentaram fugir. Foram informados que os oficiais do Reich viriam naquela semana. Balthazar saiu do trabalho e comprou uma mochila adicional, como havia combinado com sua esposa. Esposo e pai dedicado como era, estava sempre comprando roupas novas para seus filhos e presentes para a esposa, mas acostumou-se a coser as suas antigas. Então, para viajar, precisaria de novas roupas. Voltou para casa logo depois. O plano era simples: Entrar, pegar o que ainda faltasse e sair. Ir até a estação central de Vienna, Tomar o trem até Villach onde se encontrariam com a irmã de Gertrud, Astrid, e suas duas filhas. Daí seguiriam para Genova na Itália, onde tomariam um navio para a Argentina.

Quando chegou, viu que os soldados estavam revistando sua casa. Por um momento não viu sua família. Se escondeu, tentando crer que eles teriam fugido, que estariam escondidos. Olhou novamente. Viu seus filhos e sua esposa no carro do exército. Aquele carro negro. Ele tentou correr. Tentou ir até lá, gritar, espernear, pedir auxílio, socorro, ou ao menos ficar junto com eles. Mas seu corpo não se moveu. Estava dominado por um pavor súbito que não lhe permitia fazer absolutamente nada. Em poucos instantes, os oficiais entraram no carro e se foram. Ele viu seus filhos e sua esposa serem levados e não fez nada. Não conseguiu. Desesperou-se. Correu o mais depressa que pôde até a delegacia, mas não teve coragem de entrar. Chorou e perambulou pela cidade até a estação de trem, onde comprou a passagem direto para Gênova. Não se preocupou em parar em Villach. Não se lembrou de Astrid. Havia um torpor em sua alma. Algo extravagantemente sórdido que o preenchia. Um desejo de auto consumação. Mas tal qual fizera com sua família, fizera consigo: Nada.

Deixou-se entorpecer gastando quase tudo que tinha em bebidas no trem. Bêbado chegou ao cais de Gênova no primeiro navio que sairia da Europa. Era o “Augustus” e dirigia-se para a cidade de Santos, Brasil. Mas isso não importava. Tampouco importava mais se ia viver ou não. E foi dessa forma que dormiu. Isso já havia sido a mais dez dias. Lembrar-se agora dessas coisas só fazia seu coração e seu estômago apertarem mais. Chorava mas não saíam lágrimas. Sentia medo, frio, sono, angústia. Sua cabeça doía. Saiu da cabine e caminhou pelos corredores dos porões até as escadas. Subiu até o convés do navio. Se ele se jogasse ao mar agora, tudo acabaria. Iria para o Olam HaEmet, seria exposto à verdade de seu crime e então seria purificado. Questionaria o próprio Deus que lhe colocou esse medo terrível em seu corpo. Seria, seguramente absolvido de seu último crime. Ao chegar ao convés, foi até a beirada da embarcação. Era noite e não havia ninguém ali. Era como um convite. O mar escuro a chamar-lhe. Mas ele não conseguia. Pular não era uma opção. Tinha medo demais. Ouviu, então, um ruído. Eram passos arrastados vindo da escuridão. Ouviu então uma voz vindo da mesma direção.

- Balthazar… Você não pulará. Não pode, não é mesmo? - E sorriu. Em seu desespero, ele tentou fugir, mas outra vez estancou e não saiu do lugar. A voz prosseguiu risonha:

- Fraco e pobre Balthazar. Não pode impedir seu pai de ir à guerra, não pode salvar sua mãe, não pode salvar sua família, esposa e filhos, não conseguiu parar para salvar sua cunhada e não conseguiu acabar com a própria vida. E agora segue para uma terra de famintos e desesperados. - O corpo já era visto através da penumbra da noite. Era esguio e estava bem vestido. Era jovem. Lembrava de como, em sua imaginação, Otto cresceria para se tornar um adulto. Criou um mínimo de coragem e balbuciou:

- Q-q-q-q-quem é v-v-v-você? - O senhor se sentou ao lado do agachado Balthazar.

- Quem sou eu? Ha! Meu amigo. Você me conhece. Eu sou a sombra atrás do olho do assassino e a desesperança na voz da vítima; sou o gosto doce na boca do estuprador e a desilusão no coração da estuprada; sou o desejo da traição e raiva do traído, o medo do covarde e a força do opressor. Sou aquele que tem vários nomes e se orgulha de todos eles. Mas a pergunta não é essa, não é mesmo? A real pergunta é o que VOCÊ quer, Sr. Balthazar Ondrak.

Por um momento ele não entendeu. Ficou absorto olhando para o homem à sua frente. A dor dilacerante em seu peito seguia mutilando-o por dentro. Teve raiva mas o medo era tão grande que ele não se movia. Olhou para o homem que sorria de forma sórdida. Timidamente, Balthazar respondeu:

- Quero minha família!

- Ora, vamos - retrucou o outro - Sua família? E o que faria com eles? Os abandonaria novamente como cães? Não. Acredito que há algo que queira mais, não é mesmo?

Balthazar pensou. Se pudesse se matar, se tivesse coragem para tal, não estaria assim, nesse estado.

- Quero coragem. Coragem para me matar.

- Vejamos… - disse o outro pensativo. - Isso eu posso ajudar. Mas como se eu te ajudar de uma vez você pode se matar e não honrar o pagamento, façamos um acordo. Você trabalhará para mim por mil dias a contar do dia em que pisar em terras brasileiras. Passados esses mil dias, te libertarei desse medo escravizador e te darei coragem o suficiente para se matar. Ou para fazer o que bem entender com ela. O que me diz?

- E… E o que… o que me garante que o senhor cumprirá sua promessa?

- E qual outra opção o senhor tem? Algum compromisso nesse navio ou no Brasil que eu desconheça?

Balthazar ficou quieto por um instante. Como não viu outra alternativa e como se lhe parecesse uma oferta justa, ele assentiu com a cabeça. Antes porém de dizer o tão esperado “sim” que selaria o acordo, perguntou:

- E que tipo de trabalhos eu deveria fazer para o senhor? E ainda mais em terras brasileiras. Eu nem o “brasileirês” falo…

- Lá, eles falam o português. E eu vou precisar de um copista. Alguém que copie alguns textos que possuo sob a técnica e método que vou entregar. Os textos estão em diversos idiomas e não necessito que os compreenda. Somente que faça as cópias necessárias da forma que eu mandar. Em seu milésimo dia, te sentirás corajoso o suficiente para acabar com a própria vida.

- Mas eu terei que me manter lá por esse período…

- Sim, e isso é contigo. Mas posso mexer uns pauzinhos aqui e ali.

- Bem… então, sim, eu faço o acordo.

- Esplêndido! Vá descansar meu mais novo amigo. Falta pouco para chegarmos ao Brasil.

Balthazar deu ouvidos a seu interlocutor e seguiu entrando para a escadaria que dava acesso aos porões do navio sem se dar em conta de que o outro senhor ria. Ria de escárnio e prazer pela missão cumprida. Haviam sido, afinal, anos de trabalho intenso e meticuloso para conseguir agora seu copista, o primeiro em terras brasileiras. Pequenas inserções de medo e traumas de infância foram formando um ser que, apesar de todos os esforços, era agora um covarde. E dessa covardia ele se aproveitaria bem.

A mão humana pode coisas impressionantes, coisas tão grandiosas que a de um ser como ele não seria capaz nem agora nem até o fim dos tempos.


Link para a próxima parte:

terça-feira, 5 de abril de 2016

O Cobrador - Parte IV


Links para as partes anteriores:

Parte I
Parte II
Parte III

Era uma tarefa simples: Esperar os funcionários saírem, entrar, receber o pagamento e sair. Caso o pagamento não fosse realizado, “negociar”. Cleber entrou no prédio às 20:00. Era um desses grandes edifícios das Nações Unidas e precisou usar uma identidade falsa para entrar. Subiu até o vigésimo andar e entrou na Dope’s RH. A recepcionista usava um terninho simples, preto, com uma camisa com um belo decote.

- Boa noite senhor… Éverson - Esse era o nome falso na identidade de Cleber. - O Doutor Anderson já irá atendê-lo.

- Claro. - Respondeu e se sentou. Pegou uma dessas revistas de vitrines de empregos e começou a folhear. Cleber se sentia cansado. Ficou lembrando do último sábado. Foi um dia importante em sua vida. Sua filha mais nova, Larissa, havia se casado. Desde que se formara em veterinária pela PUC de SP esteve empenhada em montar seu consultório e se apaixonara por Ricardo, jovem psicólogo com quem Cleber tivera muitas conversas saudáveis nos últimos anos principalmente com respeito ao gosto dele por drinques diferentes. Começaram provando os preparados com cachaça e vodka, especialidades de Cleber nos últimos anos, mas logo o próprio Ricardo trouxe drinques com Gim e começaram a preparar, nos fins de semana, drinques diferentes para todos na casa. Era uma sensação. No casamento haviam contratado um barman muito conceituado para a festa. Mais que o casamento de sua segunda filha, era um amigo que estava casando. Isso era uma honra e uma alegria muito grande.

Durante os últimos vinte e quatro anos, ele havia passado por quase tudo que uma carreira promissora e ascendente como a sua poderia apresentar. Ele ameaçou, aterrorizou, torturou, mutilou e matou pessoas para cumprir suas obrigações. Recebeu e bem por cada trabalho que realizou, é verdade e, com isso, obteve um bom status financeiro para sua família. Agora, além do apartamento no Jardim Anália Franco, tinha outros doze que alugava em vários locais na cidade e um apartamento no Guarujá, além de uma casinha em Campos do Jordão. Era uma vida invejada por muitos. Luciana, sua filha mais velha, havia se tornado uma médica neurocirurgiã renomada, fazendo agora uma especialização em estudos avançados de hidrocefalia. Se casara com um bom marido que, embora não tão amistoso como Ricardo, era uma pessoa agradável e um empreendedor que trabalhava com aquisições de empresas tanto aqui no Brasil como no exterior, inclusive com algumas empresas de Venture Capital do Vale do Silício nos E.U.A. Fabíola, sua esposa, era uma senhora linda e inteligente. Havia voltado ao ramo hoteleiro depois que as filhas se formaram, e hoje era administradora de três grandes hotéis de uma franquia de renome internacional. Cleber a impulsionou bastante de início mas depois se tornou algo desnecessário. Agora, ela já estava engajada e não queria mais parar. Porém, cobrava de Cleber que seu trabalho na área de cobranças do banco de investimentos, apesar de rentável, era muito cansativo e que ele lucraria muito mais em ajudá-la com os hotéis.

E, por mais que ele gostasse do que fazia, já se sentia cansado. Queria se aposentar. A DANTE, porém, já havia negado por duas vezes seu pedido de aposentadoria, alegando não conhecer alguém que fizesse o trabalho tão bem como ele fazia. Não parecia haver solução para esse problema. Em meio a esses pensamentos, A recepcionista o chamou.

- Senhor Éverson, o Doutor Anderson pediu para que vá à sala quatro.

- Obrigado.

Lentamente se encaminhou para a sala, onde encontrou um senhor idoso, em cadeira de rodas em uma mesa grande, de vidro. Também estava presente uma garota vestida de vermelho. Enquanto o senhor tinha por volta de seus cinquenta anos, ela devia ter uns 25 anos, os olhos levemente puxados. Pelas feições, deveria ser boliviana ou peruana talvez.

- Entre, feche a porta e sente-se, por favor. - disse Doutor Anderson. Cleber se sentiu um pouco constrangido pela ordem. Também lhe deixava desconfortável a presença da mulher no recinto. Mas atendeu ao pedido e se sentou.

- O senhor é aquele conhecido como O Cobrador, não? - Cleber levantou a sobrancelha para o senhor na cadeira de rodas.

- Sim. Você tem o pagamento?

- Sim. Aqui está. - E apontou para a garota.

- Pois me entregue. Acabemos com isso.

- Você está com pressa, não? Pois bem. Ariela, acompanhe o jovem rapaz.

A garota se levantou e disse com um sotaque latino carregado:

- Vamos? - Sem entender nada, o cobrador pegou seu celular e olhou a missão novamente. Dizia simplesmente “Pegue o pagamento. Caso não seja entregue, negocie.” Isso era muito lacônico. Apesar de algumas vezes o deixarem na mão com relação a algumas informações, nunca algo assim tão sem sentido. E ele nunca antes havia deixado algo assim passar. Sentiu-se perdido.

- Senhor Anderson, não entendi. O que o senhor está insinuando, mais precisamente? - O doutor o olhou confundido.

- Senhor cobrador, agora quem não entende sou eu. O senhor é o cobrador da DANTE, não? - Cleber respondeu meneando a cabeça. - E o senhor veio pegar o “pagamento”, não é? - O homem gesticulou as aspas com as mãos.

- Sim, mas…

- Então. Aí está. Ela é nova, vinte e cinco anos apenas. Cabelos longos e olhar atraente. Está apta para o serviço.

- Mas… Isso é novidade. Nunca levei uma pessoa como pagamento de nada. Alguém deve haver se enganado e…

- Não. Tenho absoluta certeza de que esse é o pagamento. Se houver qualquer problema pode me contatar aqui amanhã pela manhã.

O Cobrador não soube o que fazer e resolveu entrar no jogo. “Vamos ver até onde isso vai”, pensou ele.

- OK. Então vamos… Ariela?

- Si! - disse a garota.

Com um meneio breve com a cabeça, ele se despediu do Doutor Anderson. Passou pela recepção e chegou aos elevadores. Ao chegar ao térreo, seguiu caminhando, a garota atrás. Ela então perguntou:

- Donde está el carro?

- Estou a pé. - Respondeu sem parar de caminhar, com a garota atrás.

- Caminando?

- Sii, ca-mi-nhan-do! - Respondeu com ironia enquanto seguia pela Avenida das Nações Unidas.

A garota apertou o passo para chegar a seu lado e, quando já se aproximava, ele deu sinal para um ônibus que ia apenas passando.

Subiram.

- Você não tem um bilhete único, né? - Disse mostrando o seu.

- No.

A contra gosto, ele pagou a passagem para ela. Essa era uma de suas peculiaridades. Não gostava, por mais rico que houvesse ficado, de compartilhar a passagem. Andava de transporte público em suas missões. E sozinho. Sentaram-se num dos bancos próximos à porta de saída. Havia trânsito e assim que o ônibus saiu do corredor da Nações Unidas, estava tudo travado. Cleber, então, puxou seu celular e enviou uma mensagem a seu chefe:

“Já tenho o pagamento. O que faço agora?”

Em segundos veio a resposta:

“Leve para o Doutor Ambrósio. Endereço a seguir.”

E veio o endereço, um edifício na Rua dos Gusmões, no centro. Ele achou estranho. E ficou muito bravo consigo mesmo. Ele se lembrava de haver ido a alguma missão nesse endereço, mas não se lembrava bem de que ou para que. Como ainda havia trânsito, puxou assunto com a garota.

- De onde você vem mocinha?

- De Bolívia.

- De que cidade?

- De una pequeña villa cerca de Santa Cruz de la Sierra. Se llama San Julian.

- Longe, né?

- Señor?

- Looonge - e fez um gesto distanciando as mãos uma da outra.

- Si…

- E está aqui a quanto tempo?

- Llegué… hace siete dias…

- Nossa! Por isso ainda não fala português.

- No.

- No que? - perguntou confuso Cleber.

- No hablo portugues. Solo poquito.

- E o que você faz aqui?

- Señor?

- Errr… Você trabalha? Estuda? O que faz?

- Ah! Eu vine… mmm… Cuidar de mi família... - e pôs a mão na barriga. Cleber não entendeu direito o gesto, mas não soube o que perguntar. Meneou com a cabeça e ficou absorto, pensando em momentos de sua própria família na festa do último fim de semana.

Chegaram à estação Faria Lima do metrô e, mais uma vez, Cleber pagou a passagem de ambos. Desceram na Estação República e seguiram caminhando pela noite mal-cheirosa do centro sentido a Rua dos Gusmões. Enquanto seguia, se lembrou de sua primeira missão e riu. Como tudo havia mudado. Antes era atendente de telemarketing sem futuro e agora era um bem sucedido cobrador. Antes temia a quase tudo; todos agora o temiam. Mas de acordo se aproximavam do endereço indicado, foi diminuindo o passo. Então parou. A mocinha parou ao lado dele.

- Llegamos? - Perguntou ela

- Espere. Há algo errado. Como você veio ajudar a sua família?

- Eso. Ayudar familia. - E mais uma vez levou a mão até a barriga. Não fazia sentido. Andou um pouco mais e subiu por uma porta alta por onde seguia o endereço que lhe havia sido passado. Ele já havia estado nesse lugar. Não se lembrava mais quando. “Deve haver sido alguma cobrança simples.” Pensou ele.

Chegou até o terceiro andar do pequeno edifício com a garota em seu encalço. Bateu na porta 32.

- Quem? - Disse uma voz conhecida de dentro.

- O Cobrador.

- O que você quer? Não devo nada.

- Me pediram para fazer uma entrega aqui.

A porta se destrancou e um senhor já de idade, com uma verruga no rosto apareceu. Cleber se lembrou na hora. Havia vindo receber um dinheiro desse mesmo senhor a um tempo atrás. Ele pagou sem problemas e foi tudo muito rápido. Porém o cheiro do lugar era horrível, assim como agora. O velhinho olhou para trás de Cleber.

- É ela?

- Sim, mas antes preciso saber o que será feito.

- Isso não está no acor… - Sem esperar, Cleber empurrou a porta e entrou. O senhor carrancudo e baixinho estava sem calças e se via ridículo de cuecas e camiseta regata. A garota entrou tapando o nariz. O cheiro era mesmo terrível. Havia uma penumbra causada pela luz amarela no meio da sala e pela televisão velha ligada em algum canal qualquer. Era um cheiro de sangue, urina e pão mofado. Havia uma mesa metálica no meio do cômodo. O velho fechou a porta atrás deles. E se virou para a garota, ignorando por um instante o cobrador.

- Está aí? - E apontou para a barriga da garota.

- Si. Y mi família?

- Estarán bien. Tranquila. De cuanto tiempo estás? Parece de pocos meses...

- No. Son siete. como combinado. Pero la barriga sigue pequeña.

- Siete está perfecto.

Cleber se esforçou para escutar e, de um instante, entendeu o que se passaria. Enviou uma mensagem para seu chefe:

“Cheguei ao local com o pagamento. E agora?”

“Está liberado. O pagamento será transferido amanhã.”

- Senhor cobrador… Já viu o que queria? - Disse o intimidado velhote.

Era uma situação complicada. Ele havia entendido o que se passaria aí. Sob o pretexto de ajudar sua família de alguma forma, a garota ia passar por algum procedimento cirúrgico com esse senhor. Cleber já havia passado por muita coisa nesse trabalho. Mas nunca algo assim. Ele então relembrou vários momentos de sua carreira em que ele se sentiu bem por estar fazendo o que gostava e tentando fazer o que lhe pareceria correto. Agora era diferente. Ele não tinha nenhum prazer nisso. E não lhe parecia correto. Ele olhou para a garota de vinte e cinco anos. Larissa, sua filha, era apenas dois anos mais velha.

- Ariela, onde está sua família?

- No sé. Voy ayudar a ellos.

- No, no vas. No así. - Disse Cleber no melhor espanhol que conseguiu.

Ele agarrou o velho pela camisa e o olhou de forma amedrontadora. Lhe meteu um tapa na cara e depois outro.

- O que você sabe sobre a família da garota? Fale! Agora!!

- Eu não sei, eu não… aaaahhhhh - Esperneou o velho quando Cleber lhe deu um soco no meio do estômago e depois outro no lado esquerdo, enquanto ainda o segurava pela camiseta regata. - Para! Para! - Gritou o velho, mas Cleber não parou. Em meio à imundiçe, seguiu jogando o velhote no chão. Ele tentou se levantar, quando foi surpreendido por um chute na lateral da coxa esquerda. Cleber se abaixou e, com uma mão e toda sua raiva, levantou o velho do chão. Com a outra, ele deu outro murro forte, agora no baço. - Estão mortos. Todos eles. A mãe, a irmã e o pai. Morreram… Aiii… - Colocou a mão na barriga. Respirou. - Morreram quando vieram doar os órgãos. Eu não sabia que estavam doentes. Não resistiram.

- Seu safado! - Cleber tirou o facão. - E o que você ia fazer com ela?

- O bebê! Vale muito um bebê no mercado, sabia? - Mas eu posso te dar o dinheiro se você quiser…

- Seu filho da puta! Como seria capaz? Roubar o bebê dela e nem cumprir o acordo? Você ia matar ela também, seu desgraçado! - Cleber nem pensou mais. Pegou o homem pelos cabelos e levantou a cabeça. Passou o facão afiado pela garganta, cortando-a profundamente e largando o corpo no chão.

A garota começou a gritar e chorar. Enquanto ele limpava o facão na roupa do velho.

- Senhorita, controle-se. A noite não terminou. Me siga. - E saiu, sem dar explicações ou esperar. A garota veio gritando atrás dele.

- Que hiziste? Jesus, mi familia, mi familia!

- Estão mortos! Todos. Muertos! E lo mismo ia pasar con você - E apontou para ela. - E con su hijo! - E apontou para a barriga dela. - Ahora CALLATE! - Ainda processando a informação e todo o ocorrido, ela o seguiu chorando, mas sem gritar.

Subiram de volta para a praça da República e foram até o escritório da DANTE na Rua Sete de Abril.

- Espere-me aqui - disse à jovem.

Subiu até o quarto andar e passou pela porta rapidamente. A recepcionista, ainda estava trabalhando. Ele andou direto de encontro ao balcão da recepção.

- Senhor Cleber…

- Marília, o Jânio…?

- Sala três.

- Obrigado.

Esbaforido, ele entrou. Empurrou a porta da sala três e aí estava Jânio, seu chefe, e mais quatro pessoas. Era alguma reunião tardia. Um homem, mais ou menos seus trinta e poucos no lado direito da mesa e outros dois no lado esquerdo. Um deles era mais velho, algo em torno dos cinquenta. Os três estavam com bons ternos. Na ponta da mesa de vidro, de frente para a porta, estava Janio, com sua barba farta e seu porte de quem não sai da academia.

- Cleber? Não esperava ver você aqui hoje… Veio pelo pagamento?

Ele parou próximo à porta. Eram quatro. Refletiu rapidamente e sorriu.

- Sim. O pagamento. - Passou o trinco da porta atrás de si. - Me diga uma coisa. Você sabia?

- Sabia o que? Era só mais um trabalho. Você fez a entrega?

- Eu não sou entregador. Sou cobrador. E vim aqui cobrar de você. - Ele tirou o facão e, enquanto os quatro homens lhe olhavam para ver o que ele faria, ele pôs o pé na mesa de vidro e a empurrou com toda a força que tinha pressionando a Jânio contra a parede. O homem que estava à direita meio que por instinto, avançou na direção de Cleber que, sem piedade, enfiou o facão no meio do estômago dele. Puxou-o pelo ombro direito e forçou a faca mais para dentro e depois o empurrou no chão. Quando caiu, o homem deixou um maço de cigarros e um isqueiro cair do bolso. Os dois outros homens também se precipitaram para Cleber que se esquivou de um golpe retalhou o rosto do primeiro com um corte que foi do olho até o queixo e, em seguida, avançou para o segundo, o mais velho, que lhe deu um soco no rosto e depois outro. Cleber não parou. Recuou um passo quando vinha o terceiro golpe e, enquanto puxou-o pelo braço que havia tentado golpeá-lo, enfiou o facão de baixo para cima no queixo. Puxou o facão e enfiou na nuca do outro rapaz que havia sido anteriormente retalhado. Em menos de dois minutos, os três homens estavam mortos, misturando seu sangue ao carpete.

- Senhor Jânio. - Disse Cleber enquanto abaixava para pegar os cigarros e o isqueiro. Jogou os cigarros sobre a mesa. - Deseja um último cigarro?

- Mas o que você fez? O que você vai fazer?

- Eu fui cobrador da empresa por tempo demais. Mais tempo que deveria. Você deveria ter me aposentado quando eu pedi. - Cleber se aproximou de Jânio. Pegou sua faca e, sem nenhuma explicação, nenhum sinal no rosto, nada mais que um rápido movimento, enfiou a faca na garganta dele pelo lado. Puxou-a e foi até a cortina. Acendeu com o isqueiro e olhou o fogo começar enquanto limpava o facão no paletó de seu ex-chefe. Guardou-o.

- Amanhã não precisa me pagar. - Disse antes de sair. Marília já havia ido quando ele saiu. Nunca saberia o quanto ou o que ela haveria escutado.

Ao sair, a garota ainda lhe estava esperando. Levou-a para sua casa. Explicou a sua esposa que havia pedido demissão. Também disse que a garota tinha perdido a família num acidente e que estava grávida. Mentiu dizendo que ela era filha de uma ex-colega do trabalho e que estava precisando de ajuda. Após uma longa conversa, sua esposa entendeu e aceitou.

A garota ajudou trabalhando nos negócios de Fabíola e, como suas filhas já estavam grandes, ela seguiu morando com eles. Batizou o menino que nasceu de Cleber, em homenagem a seu salvador. Cleber não voltou a ser o cobrador. Mas também nunca deixou de sê-lo...



segunda-feira, 28 de março de 2016

O Cobrador - Parte III


Links para as partes anteriores:

Parte I
Parte II

Dois homens bem vestidos entravam pelo saguão de um importante edifício na pequena rua Três de Dezembro no centro de São Paulo naquela manhã de segunda-feira. O mais velho, de olhos puxados trajava um terno cinza, gravata vinho e camisa branca, além de uma barba branca, bem feita. O outro, um pouco mais jovem, com a tez moreno-escura, trajava um terno cor de creme, e uma camisa também creme, um pouco mais escura. Enquanto o primeiro homem levava consigo uma valise, o segundo não trazia nada às mãos além de um jornal “O Estado de São Paulo”, do dia, em cuja manchete principal era o aumento do número de mortos na capital nesse ano em comparação com o mesmo período no ano anterior. Nada parecia fora do comum. Ambos entraram no elevador e apertaram o botão para o quinto andar.

- Francamente, o Santos já não é o mesmo a muito tempo - Disse o senhor mais velho ao outro, fazendo uma referência à segunda notícia principal de capa que mostrava a derrota do time para a Ferroviária.

- É verdade seu Áureo. Meu pai já nem acompanha mais futebol por causa disso.

- Beto, mas se a gente não for acompanhar futebol, o que vamos acompanhar? Os obituários?

Ambos riram enquanto saíam do elevador para o corredor em penumbra. Se dirigiram até uma sala onde dizia “Tanaka e Jamba Advogados”. A porta estava trancada.

- Diacho! - Praguejou Beto - A Luzia não chegou ainda??

- Quando ela chegar, mande-a embora e contrate outra recepcionista. Cansei dela.

- Essa porta ainda está emperrando - O jovem empurrou com força após destrancá-la e, enfim, conseguiu abrir o escritório.

Entraram.

Áureo se prontificou em ligar a chave geral e acender as luzes, enquanto Beto entrou para a pequena copa para abrir as cortinas e deixar o ar entrar. Ao passar pela porta, porém, foi surpreendido por uma mão vinda de trás tapando sua boca, enquanto outra lhe pressionava algo pontiagudo em suas costas. Uma boca se aproximou de sua orelha esquerda.

- Não se mova, não grite, não fale. Meu negócio aqui não é com você, mas com seu sócio. Se ficar calado e cooperar, não sairá machucado e tudo acabará rápido. - Disse a voz e começou a afrouxara boca do jovem rapaz. Quando pode falar, ele perguntou, tremendo de medo, em voz embargada.

- O que devo fazer?

- Nada Doutor Roberto. - E o empurrou para uma cadeira. - Apenas ficará aqui, sem incomodar.

Com grande habilidade, o intruso pegou uma corda forte e amarrou o advogado ao assento e em seguida tapou sua boca. Foi então que Beto viu que, desmaiada no chão da copa estava Luzia, a recepcionista, inconsciente. Foi então que se ouviu da outra sala:

- Beto, você sabe onde está a pasta do caso da Senhora Dorneles? Não tô encontrando aqui no computador. - O intruso deu alguns passos para fora da cozinha.

- Olá Senhor Áureo, como tem passado?

- Quem é você? Onde está o Beto? Vou chamar a polícia.

- Se você chamar a polícia, terá que explicar o sangue que haverá na sua cozinha. - Sr. Áureo abaixou o celular.

- O que você quer?

- Você pediu um empréstimo à DANTE a um ano. Eu vim receber o pagamento. São duzentos mil reais. Pague agora. - O cobrador foi se aproximando da mesa do advogado. Cleber estava mais velho. um ar mais altivo, imponente. Mas o que mais assustava era seu olhar. Havia algo de impiedoso, de intrépido e de amedrontador naqueles olhos castanhos que faziam você não querer olhar diretamente para eles. Era como a profundeza do mar ou a escuridão da lua nova.

- Mas eu não tenho o dinheiro, já disse a seu representante. Por favor, me dê um novo prazo… Eu juro que vou pagar. - Cleber já estava bem próximo à mesa. A faca à mostra somente fazia com que o Doutor Áureo estremecesse mais.

- Seu prazo venceu ontem. Eu vim cobrar o pagamento e os juros. - O rapaz pegou o celular e jogou na lixeira próxima à mesa. - Mas se não tiver o dinheiro, ainda assim receberei ambos.

- Mas eu não tenho. - Desatou a choramingar. Sua seriedade foi abaixo. - O empréstimo tinha sido para subornar o juiz no caso da Deputada Jakeline mas o advogado dela pagou mais. Resultado, fiquei sem o dinheiro e ainda perdi a causa. Por favor, me dê mais tempo. Estou entrando num caso em que o Pastor Herivaldo me garantiu que ganharemos e será uma boa grana.

- Sr. Áureo, o senhor não tem mais dinheiro nem para o Lobby. E eu não vou voltar assim, de mãos abanando.

- Mas eu tenho família. Por favor, não faça isso comigo. Eu preciso tentar. Me dê uma semana...

- Vamos fazer o seguinte doutor. Me simpatizei por você. Além disso, meus associados estão a par do processo do Pastor Herivaldo contra o Bispo Manjuvo. É um caso de plágio, não é? - O advogado balançou ferozmente a cabeça afirmativamente. - Assim sendo, vou cobrar apenas os juros hoje. E te dou um prazo de até um dia após a publicação do resultado no D.O. O que me diz?

- Mas eu não tenho dinheiro para pagar nem os juros. Por favor…

- Mas bom senhor, quem disse que os juros serão pagos em dinheiro? Ponha suas mãos sobre a mesa, com as palmas para baixo, sim?

O homem sabia o que viria. Pensou um pouco, mas não viu nenhuma solução. Seus olhos começaram a chorar sozinhos, sem controle. Ele colocou lentamente ambas as mãos na mesa. - Faça o que deve ser feito. - Disse e ficou olhando para o cobrador.

Cleber pegou o facão e fez um pequeno corte na primeira falange do dedo anelar de cada mão do Sr. Áureo. Em seguida, olhou para o Sr. que chovara desconsolado.

- Dr. Áureo Tanaka, de qual dos seus dedos anelares o senhor gosta mais? - O advogado não respondeu. - Pois bem. Eu levo o da direita então. - E cravou a ponta do facão da metade esquerda da junção entre a primeira falange do dedo direito e o restante do dedo. Em seguida, puxou para o lado e apertou com força. Um corte firme, preciso. Mas o advogado não gritou, não tentou impedir, nem buscou mover-se. Ficou ali, parado, sentado, chorando pateticamente, enquanto Cleber pegava a primeira falange do dedo anelar da mão direita e colocava dentro de seu lenço de bolso.

- Pronto. Desculpe-me. Os juros estão pagos e temos um novo acordo que, creio, será de agrado de meu chefe. - Guardou o lenço com o dedo no bolso. - Ah, já ia esquecendo. Talvez você não veja sua filha de hoje até o dia do julgamento do Bisbo Manjuvo. Talvez, como incentivo, ela venha a frequentar as cerimônias do Pastor Herivaldo… Enfim, é melhor que cumpra nosso acordo, ok?

Ainda chorando, Sr. Tanaka respondeu afirmativamente.

Cleber desceu pelas escadas como normalmente fazia quando tinha um trabalho. Saiu do prédio e virou à esquerda, se dirigindo à Rua Quinze de Novembro. Os camelôs começavam a colocar suas lonas no chão para espalhar os produtos para venda enquanto os engravatados se dirigiam ao prédio da BOVESPA. Somente mais um dia normal. Pegou seu celular informou o status da missão a seu superior, Jânio, substituto de André depois que ele morrera de câncer de estômago e seguiu seu caminho para sua segunda missão, bem mais longe do centro que a primeira.

Tomou o metrô na praça da Sé e depois de uma viagem tranquila até a estação Corinthians-Itaquera, onde fez a baldeação para o trem da linha 12, descendo na estação São Miguel. Caminhou até a Avenida Marechal Tito e, em seguida, até a Avenida Nordestina. Rua feia e estreita, com paredes pichadas e sujas. Caminhou com seu terno chamativo para a região nesse horário até a sede da Igreja do “Movimento Evangélico da Real Dinastia do Advento”. Uma dessas novas igrejas feita por pastores que gozavam de isenção de impostos para poder receber dinheiro dos fiéis em troca de um lugar ao lado de Deus no dia do advento.

Ao lado do templo estava uma casa bonita, um sobrado com balcão. Era aí que Cleber teria sua próxima missão. Tocou a campainha e esperou. A janelinha da porta abriu e uma senhora, cabelos grisalhos e ar cansado respondeu.

- Pois não?

- Minha senhora, o Bispo Eduardo Manjuvo está?

- Um minuto.

A senhora entrou e, enquanto esperava, com uso de uma micha, ele forçou, com precisão, a tranca da porta, destrancando-a, mas deixando-a fechada. Se afastou e guardou a ferramenta quando ouviu os passos. Ficou bem próximo à porta. Ainda pela janelinha, O Bispo Eduardo apareceu.

- Bom dia meu irmão, em que posso lhe ser útil?

- Olá Bispo, corte a ladaínha. Meus associados me enviaram para cobrar sua dívida e os juros.

- Eu não sei do que você está falando, e…

Cleber não esperou a explicação. Meteu um pontapé na porta destrancada e ela surpreendeu o bispo de tal forma que ele caiu para trás soltando o pequeno revólver de calibre 22 que tinha na mão. Ele se projetou para dentro da casa, chutando a arma para um cômodo no lado direito. Enquanto o bispo tentava se recompor, ainda no chão, Cleber empurrou a porta para trás com habilidade, fechando-a, e pisou com força no joelho do bispo caído. Um urro estridente de dor saiu da boca do homem, enquanto a senhora de cabelos prateados se projetava pelo corredor gritando. Em apenas três passos largos, o cobrador a alcançou e deu um murro bem forte no nariz da velha. Ele teve a delicadeza de segurá-la nos braços antes que ela caísse, para que não se machucasse no chão. Se virou para o bispo e voltou caminhando lentamente enquanto ele gritava pela dor no joelho.

- Eu odeio o seu tipo, senhor Manjuvo, mas estou aqui apenas para fazer meu trabalho. - O bispo começou a se sentar, mas Cleber empurrou-o para baixo novamente com o pé em seu peito, mantendo-o nessa posição. - Onde está o dinheiro?

- Eu não o tenho. Por favor, tenha piedade! Eu sou um homem de bem. Nem minha mãe nem eu merecemos isso…

- Você sabia no que estava se metendo quando pediu o empréstimo para apoiar o orfanato. Seus fiéis podem ter acreditado nas suas pregações imbecis a respeito de multiplicação do dinheiro, mas nós sabemos a verdade. Sua igreja cresceu no bairro a custo alto, mas agora é hora de pagar. Onde está o dinheiro?

- Eu não tenho! Eu não tenho! Por favor, não me mate! Tenha piedade! Por favor. - Ofendido com a comparação feita de sua função com a de um assassino, Cleber levantou o pé do peito do bispo e bateu com o salto do calcanhar do sapato com força no queixo do homem desesperado. Ele ficou atordoado e gemendo, e brotou sangue de sua boca. Sentiu seus dentes enfraquecerem e uma tontura repentina. Não pôde gritar.

- Eu não sou assassino seu verme. - Cuspiu. - Escória! Vou perguntar só mais uma vez. Onde está o DINHEIRO!

Assustado e aturdido, o jovem bispo verteu lágrimas que se misturaram ao sangue. Olhou para a mesa, onde estava o livro sagrado. Cleber estendeu a mão e pegou a Bíblia. Abriu o zíper e caíram dólares de dentro. Eram umas vinte notas de cem. O religioso se sentou no chão novamente e olhou com ar de desespero.

- Não entendi, senhor. O senhor está tentando me subornar? Com dois mil dólares, é isso? Eu não posso acreditar. O senhor é uma lombriga rastejante e acha que eu sou da mesma laia? Onde está o dinheiro do empréstimo seu filho de uma puta? - Somente agora Cleber tirou sua faca. - Se o senhor não tem o dinheiro da dívida - e jogou os dólares sobre o pastor - vou te impor uma nova condição de pagamento. A audiência do processo do Pastor Herivaldo contra o senhor é amanhã, não é? - O homem, ainda desesperado, balançou a cabeça afirmativamente. - O senhor irá propor um acordo no qual o senhor reconhecerá o plágio no nome da sua igreja e que o copiou diretamente do Movimento Evangélico da Redenção por Deus no Alto. Assinará o acordo propondo um parcelamento no pagamento da indenização de não mais que dez parcelas e solicitará um prazo para mudança do nome da sua igreja de não mais de trinta dias. Estou sendo claro? - Vociferou.

- S-sim, sim! - respondeu o humilhado bispo.

- Está bem. Assim sendo, vou cobrar somente os juros hoje. - Com força, o cobrador pegou o bispo pelo pescoço e jogou de cara para o chão. Apoiou o joelho na base da coluna, abaixando-se e levantou a camisa do desesperado homem no chão. Com seu facão afiado, cortou uma lasca de uns cinco centímetros de comprido da pele das costas dele. Eduardo Manjuvo começou a gritar de dor, mas o grito deu lugar a um choro de sofrimento e de angústia. Cleber guardou em outro lenço no bolso da camisa a lasca de pele, se levantou e saiu pela porta, dessa vez, sem pedir desculpas.

No dia seguinte, tudo ocorreu como esperado. O Bispo Eduardo Manjuvo admitiu publicamente ao Pastor Herivaldo o plágio no nome e ficou de pagar uma indenização em um prazo de dez meses. Um terço desse valor iria para a Tanaka e Jamba Associados, que defendia o Pastor Herivaldo na causa e, com isso e um parcelamento da dívida, o advogado conseguiu saldar sua dívida com a DANTE sem maiores dificuldades.

Cumprindo com seu dever cívico de trabalhador honesto e pagador de impostos, dez meses depois, Cleber abriu uma denúncia de porte de arma ilegal contra o bispo Eduardo Manjuvo. E se aproveitando dos contatos que a DANTE adquirira anos antes na Secretaria de Segurança Pública, pediu sigilo maior e agilidade ao caso. Em menos de um mês o Bispo Eduardo Manjuvo foi preso e condenado a trinta meses de prisão e uma multa de doze mil e quatrocentos reais. O dinheiro da multa seria revertido a ajudar o orfanato do bairro de São Miguel Paulista mas, dessa vez, sem propaganda religiosa. Cleber, o cobrador sentiu nessa missão que havia feito mais que seu trabalho. Havia feito um dever para com a sociedade em que vive e havia feito o bem. Anos mais tarde, quando suas filhas já estavam formadas e cada uma exercendo sua função para a sociedade, ele ainda se lembraria dessa missão com carinho pois ela o fez guardar um sentimento de justiça e de que, qualquer que seja sua função na sociedade, é possível usar os meios que tenha para fazer de nossa cidade um lugar mais justo.



Link para a parte final:

Parte IV

terça-feira, 22 de março de 2016

O Cobrador - Parte II


Links para a parte anterior:

Parte I

Cleber, ou melhor, O Cobrador, como era conhecido agora, estava ansioso. Não que este trabalho no Morumbi fosse mais difícil ou mais fácil que os outros que tomara desde que se filiou à DANTE, nem que o dia estivesse particularmente complicado ou que houvesse algum problema pessoal no momento, mas essa seria a primeira vez que teria que matar por conta de uma cobrança.

Desde sua filiação à “empresa”, Cleber havia feito vários trabalhos diferenciados. A maioria deles, na verdade, envolvia ameaçar algum credor para que ele pagasse corretamente suas dívidas, ou lembrar um ou outro que seu prazo estava prestes a expirar. Em alguns poucos casos, envolviam algumas mutilações pequenas como um dedo da mão ou do pé. O caso mais célere foi um em que fora solicitado a cortar com uma tesoura o tendão do calcanhar esquerdo de um homem. Nesse trabalho se sentiu mal. O homem gemeu tanto que desmaiou de medo. Despertou durante a dor mas essa foi tamanha que voltou a desmaiar.

Mas Cleber estava bem. Sua família e ele haviam mudado para o Jardim Anália Franco, para um apartamento luxuoso próximo ao Shopping. Suas filhas haviam sido transferidas para uma boa escola particular na região e ele, claro, estava feliz. Mas o que o trazia mais alegria não era a esposa ou o bem estar das filhas; Não era o cachorro, filhotinho de pug, que haviam comprado, nem a televisão de quarenta e duas polegadas comprada à vista no dinheiro; nem mesmo as cervejas importadas que recebia em casa agora que fazia parte de um clube especializado ou o carro do ano que comprara a uma semana. Era o trabalho. O antigo atendente de telemarketing finalmente havia descoberto para o que nascera. Claro que não disse a sua esposa de que se tratava. Em vez disso, disse que fora contratado para trabalhar na área administrativa no setor de cobrança de uma grande empresa: A DANTE. E o que fazia a DANTE exatamente? Bem, Cleber não entendia ao certo. Para o mundo, a DANTE era como um grande banco de investimento privado. Porém, seus sócios tinham negócios com toda a sorte de pessoas. Desde empresários a empresas beneficentes; De escolas e hospitais a empresas na área de construção civil e no mercado imobiliário. Seus chefes diziam que o objetivo da empresa é “fazer o mercado girar”. Só que o prazer de Cleber, não era em ganhar dinheiro como seus chefes, nem em alguma pretensão social. Era bem mais básico. Ele sentia gosto na tortura, na ameaça, em sentir-se poderoso em meio aos poderosos. Ele sentia o prazer no sangue, na ameaça, no olhar de medo do inimigo, em conseguir “superar-se”. E nos últimos seis meses havia se superado em muito…

Nessa sexta-feira de sol, porém, algo novo surgia para Cleber. Ele teria que assassinar uma pessoa. O trabalho seria, obviamente, mais rentável, apesar de não envolver a coleta de nenhum valor em espécie. De fato, no começo, ele nem havia entendido muito como um trabalho como esse poderia envolver um setor chamado de “cobrança” mas, muito superficialmente, o homem que se dizia chamar André o explicou: “Cobrança não se trata só de pedir o pagamento de algo, mas de garantir que outros o façam. Nesse caso, uma pessoa dentro da secretaria de segurança pública do Estado de São Paulo esteve envolvido em um empréstimo que tinha como origem o dinheiro de uma parte da força da polícia militar que trabalha nas rondas escolares. Ele não pagou. Você vai lá e mata um dos assistentes dele e depois liga, cobrando. Ele deverá pagar.” Cleber não entendeu tão bem a lógica da coisa. Mas é verdade que conseguia compreender que, se tratando de uma pessoa de relativa importância no cenário político, uma mutilação poderia alarmar muito a mídia.

Como sempre fazia quando tinha algum trabalho, foi de transporte público. Tomou o ônibus na Av. Vereador José Diniz e depois o Metrô, onde descera na estação Faria Lima. Tomou outro ônibus e desceu próximo ao Palácio. Trazia consigo somente sua faca (que substituíra o canivete usado nas primeiras missões) e um par de fotos da vítima, além de sua carteira, celular e óculos escuros. Trajava um terno simples, preto, camisa branca e gravata preta. Não tinha nem o nome da pessoa. Segundo André, o alvo estaria chegando ao local por volta das dez da manhã. Um observador em algum lugar que não havia sido dito a Cleber o avisaria por uma mensagem no celular quando o alvo estivesse se aproximando do local.

Eram nove horas quando Cleber chegou à altura da Avenida Morumbi onde haviam combinado. Esse ponto fora escolhido por não haver câmeras de segurança ou policiamento constante. Ficou ali, no ponto de ônibus, esperando o chamado e observando o trânsito e os casarões. Estava muito complicado o dia para quem estava de carro. Ele não tinha ideia de como faria para assassinar o alvo com uma faca. Esses carros costumam ser blindados e ele devia ter motorista. Talvez, o plano de hoje fosse simplesmente observar e projetar um plano melhor. Talvez ele devesse treinar com armas de fogo ou algo do tipo.

Foi então que, depois de apenas trinta minutos desde o momento em que havia chegado ao ponto de ônibus, que ele recebeu a mensagem: “Nos adiantamos um pouco. Apresse-se. Darei três piscadas com o farol dianteiro.” e passou a placa do carro. Pela mensagem foi que ele entendeu. O informante era o próprio motorista do automóvel oficial! Foi nesse momento que ele sentiu toda uma ansiedade diferente. A missão não era tão complicada assim. Ainda assim, pensou, como faria?

Nesse momento, enquanto ele refletia sobre como executaria seu alvo, viu o carro preto com a placa oficial se aproximando. Parou do lado do ponto de ônibus e esperou. O carro parou onde estava e ele entrou no banco de trás, empurrando para o lado o homem que ali estava.

- Ei! Ei!, o que é isso? Rodolfo, por que esse homem está entrando no carro? Quem é você?

Mas o carro partiu. O motorista trancou as portas pela trava de segurança e Cleber tirou a faca da parte de trás da calça.

- O que é isso? Quem é você?

- Sou o Cobrador. Trabalho para a DANTE.

- Mas eu não devo nada,...

- Me desculpe, é somente meu trabalho.

Cleber impulsionou o corpo para a frente empurrando os braços do homem sobre o banco com o peso de seu corpo. Pegou a faca e apontou para seu alvo que gritava no carro tentando abrir a porta travada. Os sons ecoavam enquanto a ponta metálica se aproximava. Quando o cobrador chegou bem perto do corpo, soltou um pouco as mãos liberando a pressão e fez uma grande força até penetrar com a ponta do facão no peito, dois dedos abaixo do mamilo esquerdo, onde estaria o coração. Lentamente forçou o corpo mais e mais. Com a mão livre, pressionou a boca de seu alvo, avançando com a cabeça, até parar com a cabeça ao lado da do homem, sua boca ao lado da orelha, e sussurrou: “Desculpe-me”. Em seguida forçou a faca até que ela entrasse fundo no peito do rapaz agonizante. Puxou a faca lentamente, um prazer contido, o som da faca era como uma nota de violino, como um sussurro, como uma pintura. Continuou segurando a boca do homem e pressionando-o contra seu corpo enquanto ele estremecia com a dor e com o desespero. Seus olhos foram lentamente se tranquilizando até que, por fim, parou de respirar. O cobrador, então, se arrastou um pouco pelo banco, colocando o corpo moribundo para o outro lado. No momento em que o carro parou no farol, Cleber abriu a porta e deixou o veículo. “O motorista deve ter um plano dele.”, pensou. Seguiu seu caminho como se nada tivesse acontecido, descendo a primeira rua que viu. Caminhou até encontrar um ponto de ônibus e tomou o primeiro que passou, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Estava cheio, mas não lotado. Por sorte o ônibus ia para o Terminal Santo Amaro, de onde poderia tomar o metrô na linha cinco e seguir viagem.

Chegou tranquilamente em casa por volta das quatro da tarde. Tomou seu banho e trocou o terno e os sapatos por um bermudão e chinelos. Sua esposa não estava. Devia estar no Shopping. Suas filhas estavam na escola. Pegou uma cerveja e se sentou, zapeando os canais na televisão. Depois de algum tempo, passou por um que lhe chamou a atenção. Era um plantão de notícias desses de emergência. Estava dando a informação que o filho do secretário adjunto da secretaria de segurança pública do estado de São Paulo havia sido morto. Uma única facada no peito. O carro estava dentro do Palácio dos Bandeirantes e o motorista não havia sido encontrado. As mãos de Cleber começaram a transpirar imediatamente. Seu coração foi a mil, sua testa começou a suar. Não, ele não sentia medo nem um tipo de desespero. Era uma satisfação. Uma felicidade pela notoriedade e reconhecimento de um trabalho bem feito. Sentia-se como se estivesse ganhando o prêmio Nobel ou o Oscar. Fez seu serviço sem manchas ou marcas, sem pistas. Algo notável. Recostou as costas na poltrona e deu um bom gole na cabeça, quase lacrimejando com a satisfação do que havia feito. Pouco tempo depois, pegou seu notebook e entrou no facebook. Ficou passando de mensagem em mensagem enquanto pessoas falavam da barbárie e do caos que se instaurara no Palácio do Governador. Outros, porém, questionavam se o assassino não havia feito justiça, uma vez que o secretário adjunto havia empregado seu próprio filho em algum cargo oficial. Mas Cleber não se importava com essas questões políticas. Ele somente se interessava no tanto que a notícia tomava forma. Ela aumentava de jornal em jornal, passando desde os que somente relatavam a notícia até os que supostamente ressaltavam detalhes sórdidos. Alguns eram reais, é certo, outros somente questionavam e faziam conjecturas sobre como algo assim poderia haver ocorrido.

Mas os mais sensacionalistas diziam que haviam sido cerca de dez facadas no peito. Desses Cleber não gostou. O que ele mais havia gostado em seu trabalho era a limpeza com que havia sido feito. Claro, teve que confiar na operação a qual nem sequer havia sido comunicado, mas foi satisfatório. Foi excelente. Foi estranhamente simples e ao mesmo tempo prazeroso. Foi como ouvir uma música singela e triste que, em dado momento, vem uma explosão. Ele não queria saber de política, de como isso afetaria o rumo do partido ao qual o secretário pertencia, ou quais seriam os efeitos disso na próxima eleição. Era apenas um trabalho.

Pegou o celular que a DANTE havia dado e ligou para o número que o André havia passado. Tocou uma, duas, três vezes. Na quarta atendeu uma voz de mulher.

- Alô.

- Alô. Esse celular pertence a um credor. Pague sua dívida.

SILÊNCIO…

- Você, seu assassino… - A mulher gritava do outro lado, chorando.

- Desculpe-me. Sou apenas um cobrador. Pague sua dívida. - E Desligou.

Refletiu um pouco sobre a palavra… “Assassino... Não. Eu somente sou um cobrador.” Jogou no lixo a garrafa de IPA e pegou outra. Serviu em seu caneco decorado e bebeu com gosto, enquanto mudava a televisão para o canal de desenhos.

No dia seguinte, pela manhã, iria até a DANTE no centro pegar seu dinheiro, em espécie. Também tinha agendado uma reunião com o contador que lhe auxiliaria a como investir seus valores sem se preocupar com o fisco. Talvez tivesse uma nova missão. E a faria com excelência pois, como veio a descobrir nos meses anteriores, era para isso que ele havia nascido.



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Parte III

Parte IV

terça-feira, 15 de março de 2016

O Cobrador - Parte I



Era um fim de tarde frio, nublado e úmido. Daqueles típicos paulistanos. A Rua Vinte e Quatro de Maio estava repleta. Já eram quase cinco e trinta da tarde e as pessoas estavam saindo apressadamente de seus serviços, dirigindo-se, em sua maioria, à Praça da República ou ao Vale do Anhangabaú. Mas não Jorge. Ele ia em outra direção.

Antes, na hora do almoço, o jovem operador de telemarketing mulato de vinte e cinco anos, duas filhas, uma esposa e um apê financiado em São Miguel Paulista havia encontrado com André, um companheiro da universidade. Fazia sol, mas já prenunciava o frio. O restaurante, um desses gordurentos padrão do centro em que Jorge havia almoçado não fora o lugar. Também não foi nas ruas sujas onde ele passeia depois do almoço. Foi, na verdade, um encontro despropositado.

Jorge, descendo pelo outro lado da praça, encontrou um café muito bacana, desses chiques, e resolveu que hoje ia gastar um dinheiro num cafezinho bom. Ele não faz isso sempre, claro. O dinheiro que ele e sua esposa ganham, mal dá pra pagar o financiamento do apartamento e sobrar para as compras do mês. O que acontece é que hoje Jorge se sentia particularmente deprimido e desiludido. Depois de mais de um ano na empresa, pensava que ia ser promovido ou pelo menos ter uma melhora no salário, mas não. Quando falou com o gerente nessa manhã, ele consultou o sistema e, então, negou sumariamente o aumento com um sorriso irônico no canto do rosto e um “Vá Trabalhar” logo depois. Porém, por coincidência dessas que o jovem mulato apelidou de “coincidências intencionais”, Serginho, branco, dezenove anos, sem filho e que vive com os pais no Tatuapé acabou sendo promovido supervisor da seção e agora seria o chefe de Jorge. Ele imaginava se o sistema havia indicado que essa ação era melhor para a empresa.

E, por isso, Jorge entrou naquele lugar chique. Era uma espécie de consolo. Ou talvez, de revolta pessoal. Pediu um expresso e um pão de queijo e no caixa lhe pediram todo o dinheiro que tinha em sua carteira. “É melhor esse negócio ser bom mesmo.”, apesar de que a música clássica de fundo, as poltronas e o ar condicionado já pudessem valer aquele preço. Sentou-se confortavelmente, meio sem jeito, numa das poltronas e aguardou que a mocinha trouxesse seu pedido. Ficou ali, apreciando as pessoas com seus ternos e gravatas, seus sapatos lustrosos e celulares modernos. Todos pareciam estar sorrindo, como que em um ritual pós-almoço cotidiano. Todos pareciam incomodamente felizes. Foi aí que ele se surpreendeu. Uma pessoa de uma outra mesa o encarou e se levantou. Veio em sua direção e parou em pé ao lado da mesinha enquanto a mocinha servia o pedido de Jorge. Jorge ficou meio sem jeito e o rapaz quebrou o gelo:

- Boné, é você? - Boné era o apelido de Jorge no tempo da faculdade. Haviam dado esse apelido para ele no segundo ano por que ele sempre estava de boné. Ninguém soube que o boné foi por causa e um acidente que ele teve quando a casa do pai dele desabou no barranco e ele quase morreu. Teve vários pontos na cabeça e até hoje a cicatriz. Mas eram bons tempos aqueles da universidade. Foi o tempo na vida de Jorge em que ele ainda acreditava no mundo. Diziam que menino pobre tinha que se esforçar pra entrar na pública. Ele não foi um desses. Entrou numa particular meia boca que mal conseguia pagar. Mas ia conseguir vencer na vida assim mesmo. Ah, como ele era tolo naquela época. O rapaz continuou: - Claro que é você. Tenho certeza. Como era mesmo seu nome… Jorge, não é?

- Isso, isso mesmo! - Disse Jorge enquanto colocava açúcar em seu cafezinho. - E você? Quem é?

- Sou o André... Da universidade, lembra de mim? - Jorge se lembrava vagamente dos amigos da faculdade. Quando estava no penúltimo ano sua filha nasceu. Foi quase por milagre que conseguiu concluir o curso. Então, resolveu fingir:

- Claro, claro que me lembro. Senta aí.

- Cara, a quanto tempo! Nunca mais te vi. O que aconteceu contigo?

- Sei lá cara… Trampando, trampando e trampando mais. Duas filhas pra criar é osso.

- Puta merda! Meu, duas filhas já? Que coisa... E onde ‘cê ‘’tá trampando?

- Na Falasse… Telemarketing ativo.

- Cara, que bosta. Justo você? Lembro que você era um dos melhores nos tempos de facu. - Ver o outro rapaz menosprezar seu trabalho só o deixou mais para baixo. Então olhou. André vestia um terno bonito, caro, com colete, gravata e sapato lustroso. André pertencia a esse lugar. Jorge não.

- A vida parece ter sorrido pra você então, né? - Disse Jorge, tentando mudar o assunto.

- Mais ou menos isso. Tenho uma filha, mas agora moro em Higienópolis. Vim aqui no “centrão” hoje visitar um cliente, mas não aguento mais essa vida. Só que tive que mandar embora meu representante comercial daqui dessa região e não teve outro jeito. Tive que vir para cá.

A verdade é que depois de ouvir “Higienópolis”, Jorge não prestou muita atenção nas outras coisas. “Caramba! Hi-gi-e-nó-po-lis! Só as elites!” É quase como se fosse o sonho do próprio Jorge. Sem querer, esses pensamentos foram ficando em voz alta e Jorge disse:

- Só falta você dizer que é o dono da empresa…

- Sou, sou sim. - Respondeu André. - Com outros dois sócios. Montamos a empresa com uma ideia que tivemos no último ano da facu. Lembra daquele monte de porcarias que comíamos naquele tempo? - “Como esquecer! Comi uma porcaria assim ainda hoje”, mas se conteve e apenas afirmou com a cabeça e deu mais uma golada no cafezinho. - Então... Numa dessas, num desses botecos, encontramos com o Telório da turma de economia. Ele tava fazendo o trabalho de graduação e o Dennis e eu colamos nele. Era um método automatizado para gestão de empresas. Cara, recebemos um financiamento gigante pra por a ideia no ar. Um ano depois da graduação recebemos nosso primeiro cliente grande. E essa é a história da DANTE.. Já ouviu falar? - Se Jorge já tinha ouvido falar? A própria Falasse era cliente da DANTE.

- Você tá brincando, né? Quer dizer… “A” DANTE Consulting?

- É meu caro... DANTE é uma junção do começo dos nossos nomes. A ideia deu tão certo que já tem dois anos que saímos do país. Hoje, além de termos uma boa amplitude no mercado nacional, também vendemos para Peru, Venezuela, Colômbia, Paraguai, México e, mês que vem, estaremos no mercado americano. - O jovem operador de telemarketing ficou estupefato. Era impressionante.

- Tá… Mas como vocês fazem? O software de gestão de vocês eu já vi na Falasse. Ele é impressionante! Trava indicadores desde a operação até os níveis estratégicos! Inclusive, creio que hoje não recebi um aumento por causa desse sistema estúpido.

- Ei, vai com calma… A Falasse nem é nosso melhor cliente. O sistema dele está mal configurado e eles pagam somente o plano básico. Mas em clientes melhores, a gente vê a “mágica” funcionar.

- Legal cara. Legal mesmo! Olha… Eu tenho que ir. Já passou do meu horário do almoço, e…

- Não, não, eu entendo… Mas Jorge, por que você não faz o seguinte… Passa lá no nosso escritório daqui do centro depois do trabalho pra a gente bater um papinho…

- Não vou poder - respondeu Jorge meio instintivamente…

- E por que? Olha… Vai ser uma oportunidade de ouro. Poderemos conversar um pouco… Quem sabe eu não te ajudo a sair dessa vidinha?

- Mas…

- Cara. Aparece lá. Às seis da tarde. - O jovem engravatado retirou um cartão da carteira, onde dizia “André Nunes - Diretor Comercial”, e o logo da DANTE, além de um número de celular e uma direção na Rua Sete de Abril.

- Tá bom, vou ver se consigo. Às seis, né?

- “Vou ver se consigo”? Jorge, a oportunidade não vem assim para todos. Aparece por lá.

Jorge concordou com a cabeça e apertou a mão de André antes de sair apressadamente pela porta comendo o último pedacinho de seu pão de queijo.

O operador de telemarketing tinha orgulho. Tinha brio. Entendia que as coisas não tinham saído tão bem em sua vida, que passava agora por um momento de complicações, de turbulência (como se ele já houvesse voado de avião para entender essa metáfora), mas que ia conseguir se levantar. E, além de seu orgulho, a arrogância e prepotência do antigo amigo da faculdade era impressionante.

Porém, estava cansado. Cansado de lutar uma luta desleal, cansado de se deixar ser empurrado pela vida. Cansado da pinga barata da padaria, da cerveja com gosto de mijo, da televisão velha, do celular velho, do carro acabado, das contas vencidas. E foi esse cansaço que fez com que, ao invés de dirigir-se para o metrô República como fazia todos os dias, estava indo na direção daquele cartão. Ligou para a esposa e disse que não demoraria, que ia ver uma oportunidade de trabalho. Teve que escutar Luciana de oito anos pedindo que o pai trouxesse um chocolate e Larissa de três chorando de fome antes de desligar.

Foi assim que chegou ao prédio reformado às cinco para as seis. Ao entrar, no saguão, notou que quatro dos cinco andares era da DANTE. “Uau!”, pensou ele. Foi à portaria e falou com o recepcionista que rapidamente se comunicou com outra pessoa que autorizou a subida. Após o registro e o elevador, chegou a outra recepção no quarto piso. A atendente já estava de saída e pediu a Jorge que aguardasse que o André já viria falar com ele.

Após longos e tediosos minutos folheando uma revista de negócios, André saiu de uma sala com um senhor oriental e uma senhora magrela. Se despediu deles e ao fechar a porta, veio na direção de Jorge.

- Fala meu amigo. Que bom que veio. Desculpe-me a demora. Me acompanhe por favor. - Jorge apertou a mão de André e o seguiu até a sala indicada. Uma sala de reuniões grande, com uma mesa comprida e várias cadeiras ao redor. Na lousa era possível ver alguns gráficos e rabiscos feitos na última reunião. Se sentaram e, sem aguardar, André seguiu:

- Jorge, sei que pode parecer agressivo, mas qual seu salário atual?

- Ah, relaxa. Não é tão “agressivo” assim. - Mas Jorge se sentiu sim um pouco incomodado com a pergunta. - Ganho mil quatrocentos e cinquenta reais. Registrado.

- Por mês? - André pareceu um pouco indignado. Ainda assim, Jorge respondeu:

- Sim, por mês.

- Tá. Você tem alguma experiência no ramo de cobrança?

- Bom… Trabalho com Telemarketing Ativo no momento, mas não, não tenho experiência com scripts de cobran… - André o interrompeu

- Não, não. Quero dizer no ramo de cobranças presenciais.

- Você diz recebendo clientes para negociação?

- Mais ativo, na verdade. Visitando clientes não pagadores.

- Não. Não tenho nenhuma experiência.

- Bem… O que me diz de fazer um teste? Simples assim. Você vem comigo e faz a cobrança. Se fizer bem o trabalho e gostar, o emprego é seu. Senão, é só ir embora.

- ‘Tá, mas qual o salário?

- Não trabalhamos com salário para esse serviço. Na verdade, não estou contratando alguém para a DANTE, mas sim para uma das minhas atividades “paralelas”. O pagamento é por comissão. Para esse trabalho, se você conseguir que o cliente pague o que deve, te pago dez por cento do valor. - Jorge olhou desconfiado.

- E estamos falando de quanto exatamente?

- O valor devido nesse caso é de duzentos e cinquenta mil reais. Se você conseguir o pagamento, vinte e cinco mil são seus. O que me diz?

Jorge sabia que deveria ser algo ilegal. Sabia que iria por em risco sua vida. Mas o dinheiro era bastante. Era mais do que ele ganharia em dois anos. Nem hesitou:

- Feito. Mas gostaria de saber um pouco mais do que se trata e,... - Interrompido mais uma vez.

- Não! Quanto menos você souber, melhor. - Levantou-se. - Vamos?

- Já!?

- Sim, já! Seu “teste” está na Rua Santa Ifigênia e só estará lá até as oito da noite. - Já eram dez para as sete. - O tempo urge.

Jorge refletiu um pouco mais, mas notou que não tinha mais volta. Foram.

Seguiram pelas ruas sujas do centro, com sua população de mendigos e beberrões, com seus cine-pornô e trabalhadores, com o cheiro de esgoto e fumaça e viraram a esquina da Ipiranga com a Santa Ifigênia apressadamente. foi então que André diminuiu um pouco o passo.

- Jorge, de outras vezes espero que venha melhor vestido. Mas para o trabalho de hoje vai servir. ‘Tá vendo aquele prédio? - E apontou para um cor de creme, antigo. Sem esperar resposta, prosseguiu: - Suba pelas escadas até o segundo andar. Vá até a sala vinte e três e procure pelo Marcão. Ele tem uns trinta anos, quase da sua altura, cicatriz no lado esquerdo do rosto. Suba e me traga a maleta com o dinheiro. Esperarei aqui. - André olhou ao redor e puxou um canivete longo de seu bolso. Entregou para André. - Mais uma coisa. Além da maleta, preciso de um dedo dele como juros do atraso.

O rapaz olhou assustado. Pegou o canivete meio que por instinto, mas balançou a cabeça.

- Cara, como assim arrancar um dedo? ‘Cê ta louco?

- Guarda esse canivete seu animal! - Agrediu André. - Vai senão eu chamo os guardas ali na próxima esquina e falo que você ta tentando me assaltar. Agora vai! Vai logo! E nem pense em fugir com o dinheiro senão eu acabo com tua raça, mané.

Jorge se afastou meio de costas, e saiu. Sentiu-se com muito medo, acuado e quase chorando. Sentia-se mal, estômago embrulhado, ânsia de vômito, suava frio. Caminhou olhando para todos os lados e todas as direções. Pareceu uma eternidade mas, por fim, chegou ao prédio.

Subiu as escadas zonzo, brincando com o canivete no bolso. Olhou as portas no segundo andar. “vinte e sete, vinte e cinco, vinte e três. Fácil demais encontrar.”, refletiu ele. Respirou fundo e, vendo que não havia mais como sair dessa, pensou no dinheiro, Pensou em sua filha passando fome. Pensou em poder pagar uma escola para cada uma, em terminar o financiamento da casa. Pensou em sua esposa, em suas frustrações. E, sentiu uma força que não possuía antes. Um grito de frustração, de rancor, de ódio com a sociedade. Bateu forte na porta com o cabo do canivete.

- Já vou. - Escutou do outro lado.

Bateu forte novamente.

- Que inferno, já vou! - Escutou outra vez. Jorge Estava ansioso. Estava suando frio, era uma sensação vertiginosa. Não sabia se fugir ou se esperar a porta abrir. E no momento de dúvida, as trancas da porta começaram a mover-se. Quando a terceira e última tranca foi retirada e ele viu a maçaneta girar, sem pensar duas vezes, com o canivete ainda na mão, Jorge Impulsionou o corpo para trás e em seguida para frente, levantando o pé até o meio da porta e dando um coice violento. Ela bateu na cara do homem atrás dela, que soltou a maçaneta e caiu encostando na parede. Jorge segurou a porta no retorno e empurrou mais uma vez para frente, abrindo-a. Viu estatelado no chão o corpo do moço da cicatriz. Havia desmaiado com a pancada na cabeça. Invadiu o apartamento e viu que o rapaz trabalhava com algo relacionado com computadores. Pensou rapidamente virando os olhos e viu vários cabos de rede azuis e outros negros. Pegou alguns e amarrou as pernas e os braços do rapaz. Ainda inseguro e ofegante, arrastou-o e sentou-o com dificuldade na cadeira, amarrando também o pescoço ao encosto.

Fechou a porta assustado, quase chorando. Respirou fundo e pensou “Meu Deus, o que estou fazendo?” Olhou ao redor e buscou uma jarra com água que estava na micro cozinha do apartamento. Jogou a água na cara do homem da cicatriz. Ele despertou assustado.

- Marcão? - Disse tentando soar amedrontador, mas na verdade parecendo um medroso. - O-o André mm-me mandou aqui. Me entrega a maleta.

- Cara, o que é isso? Você invade a minha casa e… - Assustado, Jorge falou num tom quase sombrio.

- Fala logo onde está que eu vou embora. Não fala e - Abriu o canivete. - e… e eu fico.

- Seu puto! A maleta ta ali. - Apontou o com o queixo. - Minha testa ta sangrando seu imbecil. Isso não vai ficar assim! Pensa que eu não guardei seu rosto? Guardei sim! Isso não vai ficar assim! Você vai ver!

Jorge pegou a maleta e hesitou. Precisava concluir o trabalho. Tremia com o canivete na mão. O outro soltava imprecações e xingamentos. A garganta presa no encosto da cadeira estava vermelha. Ele não sabia como arrancar um dedo. Ficou com medo do cara se mexer. Mas lembrou da sua filha chorando. Das noites sem dormir, das dificuldades da vida. Da conta no vermelho no banco. Deu uma pancada bem forte na cabeça do Marcão, sem pensar. Desacordou o rapaz novamente. Pegou um trapo e enfiou na boca dele para que não gritasse. Amarrou as mãos ao encosto da cadeira e passou outro cabo na barriga do cara amarrando-o à cadeira ainda mais forte. Analisou o fio do canivete e viu que era bem afiado. Pegou o dedo indicador da mão esquerda, o que parecia mais fácil de pegar, passou a lâmina por entre o médio e este dedo e girou, puxando, cortando o dedo bem na junção com a mão. Puxou freneticamente, serrando o dedo e conseguiu arrancá-lo. Tudo estava escuro, silencioso e, de uma só vez, ouviu o grunhido do outro homem. Um som seco, abafado pelo pano na boca, com lágrimas nos olhos. O sangue escorria de onde o dedo fora arrancado. O rapaz se debatia enquanto lutava contra os cabos e contra o pano dentro de sua boca. Num momento de pena, tremendo muito, Jorge, chorando, pegou um pano de prato e colocou nas mãos amarradas do outro homem, tapando o sangramento. Mostrou o dedo para ele e, sem saber o que dizer, apenas pronunciou aquela palavra que nunca mais esqueceria:

- Obrigado!

Saiu do apartamento deixando Marcão lá, amarrado, em situação deplorável. Quis se importar com ele, mas não podia fazer mais nada. Saiu e, quando chegou ao térreo, se deu em conta que havia carregado o dedo ensanguentado na mão e o canivete aberto na outra. Se encontrou com André que rapidamente se aproximou.

- Fecha isso seu babaca. Entra aqui! - E abriu uma porta de uma pequena sala no fundo do corredor. Eles entraram. André pegou o dedo da mão de Jorge e guardou num lenço que tinha no bolso. Abriu a maleta e conferiu visualmente o dinheiro. Retirou ali mesmo, num quartinho no meio da Rua Santa Ifigênia vinte e cinco pacotes de notas de cem.

- Tome. Aqui está sua parte. Parabéns. Está contratado. Apareça no escritório amanhã para os detalhes de nosso acordo. Vista um terno negro, camisa branca e gravata negra. Sapatos lustrados. Ah, e chegue bem cedo. Agora vá embora. E pode ficar com o canivete de brinde.

Jorge ficou vendo André sair do quartinho com a maleta, indo embora apressadamente. Guardou o dinheiro como pode, espalhando em partes de suas roupas e saiu.

Parou no primeiro boteco que encontrou e pediu um bombeirinho e depois outro. Quando chegou em casa, já era tarde. Beijou suas filhas, sua esposa e foi se banhar. Chorou pelo que fez e pela visão do desespero do outro homem mas, estranhamente, sentia prazer nisso. Um prazer estranho, sórdido. Uma realização por haver conseguido realizar a tarefa, um orgulho pelo dinheiro conquistado. Dormiu e teve bons sonhos nessa noite.



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