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Parte I
Cleber, ou melhor, O Cobrador, como era conhecido agora, estava ansioso. Não que este trabalho no Morumbi fosse mais difícil ou mais fácil que os outros que tomara desde que se filiou à DANTE, nem que o dia estivesse particularmente complicado ou que houvesse algum problema pessoal no momento, mas essa seria a primeira vez que teria que matar por conta de uma cobrança.
Desde sua filiação à “empresa”, Cleber havia feito vários trabalhos diferenciados. A maioria deles, na verdade, envolvia ameaçar algum credor para que ele pagasse corretamente suas dívidas, ou lembrar um ou outro que seu prazo estava prestes a expirar. Em alguns poucos casos, envolviam algumas mutilações pequenas como um dedo da mão ou do pé. O caso mais célere foi um em que fora solicitado a cortar com uma tesoura o tendão do calcanhar esquerdo de um homem. Nesse trabalho se sentiu mal. O homem gemeu tanto que desmaiou de medo. Despertou durante a dor mas essa foi tamanha que voltou a desmaiar.
Mas Cleber estava bem. Sua família e ele haviam mudado para o Jardim Anália Franco, para um apartamento luxuoso próximo ao Shopping. Suas filhas haviam sido transferidas para uma boa escola particular na região e ele, claro, estava feliz. Mas o que o trazia mais alegria não era a esposa ou o bem estar das filhas; Não era o cachorro, filhotinho de pug, que haviam comprado, nem a televisão de quarenta e duas polegadas comprada à vista no dinheiro; nem mesmo as cervejas importadas que recebia em casa agora que fazia parte de um clube especializado ou o carro do ano que comprara a uma semana. Era o trabalho. O antigo atendente de telemarketing finalmente havia descoberto para o que nascera. Claro que não disse a sua esposa de que se tratava. Em vez disso, disse que fora contratado para trabalhar na área administrativa no setor de cobrança de uma grande empresa: A DANTE. E o que fazia a DANTE exatamente? Bem, Cleber não entendia ao certo. Para o mundo, a DANTE era como um grande banco de investimento privado. Porém, seus sócios tinham negócios com toda a sorte de pessoas. Desde empresários a empresas beneficentes; De escolas e hospitais a empresas na área de construção civil e no mercado imobiliário. Seus chefes diziam que o objetivo da empresa é “fazer o mercado girar”. Só que o prazer de Cleber, não era em ganhar dinheiro como seus chefes, nem em alguma pretensão social. Era bem mais básico. Ele sentia gosto na tortura, na ameaça, em sentir-se poderoso em meio aos poderosos. Ele sentia o prazer no sangue, na ameaça, no olhar de medo do inimigo, em conseguir “superar-se”. E nos últimos seis meses havia se superado em muito…
Nessa sexta-feira de sol, porém, algo novo surgia para Cleber. Ele teria que assassinar uma pessoa. O trabalho seria, obviamente, mais rentável, apesar de não envolver a coleta de nenhum valor em espécie. De fato, no começo, ele nem havia entendido muito como um trabalho como esse poderia envolver um setor chamado de “cobrança” mas, muito superficialmente, o homem que se dizia chamar André o explicou: “Cobrança não se trata só de pedir o pagamento de algo, mas de garantir que outros o façam. Nesse caso, uma pessoa dentro da secretaria de segurança pública do Estado de São Paulo esteve envolvido em um empréstimo que tinha como origem o dinheiro de uma parte da força da polícia militar que trabalha nas rondas escolares. Ele não pagou. Você vai lá e mata um dos assistentes dele e depois liga, cobrando. Ele deverá pagar.” Cleber não entendeu tão bem a lógica da coisa. Mas é verdade que conseguia compreender que, se tratando de uma pessoa de relativa importância no cenário político, uma mutilação poderia alarmar muito a mídia.
Como sempre fazia quando tinha algum trabalho, foi de transporte público. Tomou o ônibus na Av. Vereador José Diniz e depois o Metrô, onde descera na estação Faria Lima. Tomou outro ônibus e desceu próximo ao Palácio. Trazia consigo somente sua faca (que substituíra o canivete usado nas primeiras missões) e um par de fotos da vítima, além de sua carteira, celular e óculos escuros. Trajava um terno simples, preto, camisa branca e gravata preta. Não tinha nem o nome da pessoa. Segundo André, o alvo estaria chegando ao local por volta das dez da manhã. Um observador em algum lugar que não havia sido dito a Cleber o avisaria por uma mensagem no celular quando o alvo estivesse se aproximando do local.
Eram nove horas quando Cleber chegou à altura da Avenida Morumbi onde haviam combinado. Esse ponto fora escolhido por não haver câmeras de segurança ou policiamento constante. Ficou ali, no ponto de ônibus, esperando o chamado e observando o trânsito e os casarões. Estava muito complicado o dia para quem estava de carro. Ele não tinha ideia de como faria para assassinar o alvo com uma faca. Esses carros costumam ser blindados e ele devia ter motorista. Talvez, o plano de hoje fosse simplesmente observar e projetar um plano melhor. Talvez ele devesse treinar com armas de fogo ou algo do tipo.
Foi então que, depois de apenas trinta minutos desde o momento em que havia chegado ao ponto de ônibus, que ele recebeu a mensagem: “Nos adiantamos um pouco. Apresse-se. Darei três piscadas com o farol dianteiro.” e passou a placa do carro. Pela mensagem foi que ele entendeu. O informante era o próprio motorista do automóvel oficial! Foi nesse momento que ele sentiu toda uma ansiedade diferente. A missão não era tão complicada assim. Ainda assim, pensou, como faria?
Nesse momento, enquanto ele refletia sobre como executaria seu alvo, viu o carro preto com a placa oficial se aproximando. Parou do lado do ponto de ônibus e esperou. O carro parou onde estava e ele entrou no banco de trás, empurrando para o lado o homem que ali estava.
- Ei! Ei!, o que é isso? Rodolfo, por que esse homem está entrando no carro? Quem é você?
Mas o carro partiu. O motorista trancou as portas pela trava de segurança e Cleber tirou a faca da parte de trás da calça.
- O que é isso? Quem é você?
- Sou o Cobrador. Trabalho para a DANTE.
- Mas eu não devo nada,...
- Me desculpe, é somente meu trabalho.
Cleber impulsionou o corpo para a frente empurrando os braços do homem sobre o banco com o peso de seu corpo. Pegou a faca e apontou para seu alvo que gritava no carro tentando abrir a porta travada. Os sons ecoavam enquanto a ponta metálica se aproximava. Quando o cobrador chegou bem perto do corpo, soltou um pouco as mãos liberando a pressão e fez uma grande força até penetrar com a ponta do facão no peito, dois dedos abaixo do mamilo esquerdo, onde estaria o coração. Lentamente forçou o corpo mais e mais. Com a mão livre, pressionou a boca de seu alvo, avançando com a cabeça, até parar com a cabeça ao lado da do homem, sua boca ao lado da orelha, e sussurrou: “Desculpe-me”. Em seguida forçou a faca até que ela entrasse fundo no peito do rapaz agonizante. Puxou a faca lentamente, um prazer contido, o som da faca era como uma nota de violino, como um sussurro, como uma pintura. Continuou segurando a boca do homem e pressionando-o contra seu corpo enquanto ele estremecia com a dor e com o desespero. Seus olhos foram lentamente se tranquilizando até que, por fim, parou de respirar. O cobrador, então, se arrastou um pouco pelo banco, colocando o corpo moribundo para o outro lado. No momento em que o carro parou no farol, Cleber abriu a porta e deixou o veículo. “O motorista deve ter um plano dele.”, pensou. Seguiu seu caminho como se nada tivesse acontecido, descendo a primeira rua que viu. Caminhou até encontrar um ponto de ônibus e tomou o primeiro que passou, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Estava cheio, mas não lotado. Por sorte o ônibus ia para o Terminal Santo Amaro, de onde poderia tomar o metrô na linha cinco e seguir viagem.
Chegou tranquilamente em casa por volta das quatro da tarde. Tomou seu banho e trocou o terno e os sapatos por um bermudão e chinelos. Sua esposa não estava. Devia estar no Shopping. Suas filhas estavam na escola. Pegou uma cerveja e se sentou, zapeando os canais na televisão. Depois de algum tempo, passou por um que lhe chamou a atenção. Era um plantão de notícias desses de emergência. Estava dando a informação que o filho do secretário adjunto da secretaria de segurança pública do estado de São Paulo havia sido morto. Uma única facada no peito. O carro estava dentro do Palácio dos Bandeirantes e o motorista não havia sido encontrado. As mãos de Cleber começaram a transpirar imediatamente. Seu coração foi a mil, sua testa começou a suar. Não, ele não sentia medo nem um tipo de desespero. Era uma satisfação. Uma felicidade pela notoriedade e reconhecimento de um trabalho bem feito. Sentia-se como se estivesse ganhando o prêmio Nobel ou o Oscar. Fez seu serviço sem manchas ou marcas, sem pistas. Algo notável. Recostou as costas na poltrona e deu um bom gole na cabeça, quase lacrimejando com a satisfação do que havia feito. Pouco tempo depois, pegou seu notebook e entrou no facebook. Ficou passando de mensagem em mensagem enquanto pessoas falavam da barbárie e do caos que se instaurara no Palácio do Governador. Outros, porém, questionavam se o assassino não havia feito justiça, uma vez que o secretário adjunto havia empregado seu próprio filho em algum cargo oficial. Mas Cleber não se importava com essas questões políticas. Ele somente se interessava no tanto que a notícia tomava forma. Ela aumentava de jornal em jornal, passando desde os que somente relatavam a notícia até os que supostamente ressaltavam detalhes sórdidos. Alguns eram reais, é certo, outros somente questionavam e faziam conjecturas sobre como algo assim poderia haver ocorrido.
Mas os mais sensacionalistas diziam que haviam sido cerca de dez facadas no peito. Desses Cleber não gostou. O que ele mais havia gostado em seu trabalho era a limpeza com que havia sido feito. Claro, teve que confiar na operação a qual nem sequer havia sido comunicado, mas foi satisfatório. Foi excelente. Foi estranhamente simples e ao mesmo tempo prazeroso. Foi como ouvir uma música singela e triste que, em dado momento, vem uma explosão. Ele não queria saber de política, de como isso afetaria o rumo do partido ao qual o secretário pertencia, ou quais seriam os efeitos disso na próxima eleição. Era apenas um trabalho.
Pegou o celular que a DANTE havia dado e ligou para o número que o André havia passado. Tocou uma, duas, três vezes. Na quarta atendeu uma voz de mulher.
- Alô.
- Alô. Esse celular pertence a um credor. Pague sua dívida.
SILÊNCIO…
- Você, seu assassino… - A mulher gritava do outro lado, chorando.
- Desculpe-me. Sou apenas um cobrador. Pague sua dívida. - E Desligou.
Refletiu um pouco sobre a palavra… “Assassino... Não. Eu somente sou um cobrador.” Jogou no lixo a garrafa de IPA e pegou outra. Serviu em seu caneco decorado e bebeu com gosto, enquanto mudava a televisão para o canal de desenhos.
No dia seguinte, pela manhã, iria até a DANTE no centro pegar seu dinheiro, em espécie. Também tinha agendado uma reunião com o contador que lhe auxiliaria a como investir seus valores sem se preocupar com o fisco. Talvez tivesse uma nova missão. E a faria com excelência pois, como veio a descobrir nos meses anteriores, era para isso que ele havia nascido.
Link para as próximas partes:
Parte III
Parte IV

Muito bom, muito bom mesmo!
ResponderExcluirValeu doutor. Em breve a continuação... :)
ExcluirAinda não matou o amigo... nem rancou dedinho dele, talvez a cabeça....
ResponderExcluirEntão... kkkkk
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