sexta-feira, 5 de agosto de 2022

O Copista - Parte II

 



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Eram dez horas da noite quando o “Augustus” atracou no porto de Santos. Todos os passageiros desembarcaram como loucos desesperados. Balthazar teve que esperar até que houvesse espaço para sair. A neblina da madrugada já começava a se formar quando ele desembarcou. Ao pisar fora da prancha, em terra firme e ouvir as pessoas ao seu redor falando em todo o tipo de idioma e se sentiu só. Ao mesmo tempo, lembrou de sua conversa a algumas noites. Agora começava a contar seus “mil dias”.

Como se fossem cargas, os imigrantes, como ele, eram direcionados para os trens. Escoltados por policiais e agentes portuários, em fila, a caminho da estação, os homens, mulheres, idosos e crianças iam em iguais condições. Havia um ar de cansaço e uma atmosfera de penitência naquele cais de porto. O cheiro também não ajudava: Um odor de peixe podre, excremento de burros, vômito e urina eram carregados por todo lado pela umidade do ar e pela maresia. Os sons também eram uma confusão de latidos de cães, guinchos de rato, gemidos de enfermos e palavras em muitos idiomas diferentes. Eles se confundiam com o barulho incessante de um maquinário do qual aos poucos a fila se aproximava.

Havia uma tensão no ar que não parou ao adentrar ao trem. Ouviu uma voz gritando. Não entendia o que dizia, mas parecia estar repetindo em vários idiomas. Em dado momento, disse em alemão mal falado: "Esse trem seguirá sem paradas até a estação Hospedaria dos Imigrantes. Tenham todos uma boa viagem".

Seguiu a ladainha em outros idiomas mas Balthazar, fraco e ainda meio entorpecido pela viagem, dormiu encostado em sua cadeira no trem.

Já era noite novamente quando ele acordou. Outra fila. Agora para desembarcar do trem na estação da Hospedaria. Agora, porém, os odores já não eram tão fortes. Ou talvez seu nariz já tivesse se acostumado. Ele ficou para trás e acabou sendo um dos últimos da fila. Espirrou e tossiu uma tosse feia, dessas que a gente sabe que não está bem. Sentia-se muito fraco e simplesmente, mais uma vez, fez o que fez por grande parte da vida: seguiu.

Balthazar foi hospedado em um quarto grande com beliches onde a única diferença do navio que que estava antes era que aqui não balançava muito, a não ser quando o trem passava, parecendo que ia fazer com que tudo desmoronasse. Lá ele passou suas seis noites seguintes. Ele ficou pior, mas depois veio a descobrir que era só uma gripe forte. Foi lá que ele conheceu Joachim, um alemão que havia fugido da guerra e que agora ajudava os imigrantes. Era amável e bondoso, trabalhando como enfermeiro. Balthazar poderia jurar que teve várias conversas agradáveis com ele. Mas não viria a se lembrar de nenhuma dessas conversas no futuro.

Na sexta noite, Joachim acordou o então recuperado Balthazar de seu leito com dois tapas. Assustado, ele se levantou e, na penumbra, com uma vela na mão e olhos que Balthazar poderia jurar que estavam sangrando, ele mandou que ele se vestisse. Sem protestar, ele o fez e seguiu sem palavras pelos corredores, entre camas e roncos, até a saída do alojamento. Lá chegando, notou que as costas de Joachim estavam rasgadas. Roupa e pele. Como se fossem marcas de garras. Balthazar quis perguntar mas seu interlocutor o olhou, seus olhos eram de um vermelho-sangue pulsante. Um breve momento passou e ele disse simplesmente: "Siga-me".

Eles saíram da estalagem e andaram pela penumbra da noite até um carro que estava parado a duas quadras dali. Balthazar entrou seguindo seu guia e foram conduzindo o carro pelas escuras e sombrias ruas da cidade. Em dado momento, com uma voz monótona, Joachim disse: “Nosso mestre te está designando para o bairro do Pari. Lá você encontrará trabalho no cartório próximo ao endereço em que vou te deixar. Você ficará numa pensão à rua Carnot, no quarto de número 21. Aqui estão documentos para que você possa se identificar e sua primeira tarefa”. - Ele lhe entregou um envelope. - “Passarei em seis dias para coletá-la”.

Antes que Balthazar absorvesse tudo, estava parado à porta da dita pensão com o envelope na mão e vendo o carro partir.

Na pensão, ele foi recebido por uma senhora portuguesa que se apresentou como dona Alépia. Ela o fez entrar e mostrou seu quarto. Ouviu então o barulho da chuva o que fez com que a senhora subisse rápido pelo quintal da pensão, deixando Balhtazar apenas com um candeeiro aceso na mão à porta do quarto. Aquele pequeno quarto fedido no porão tinha paredes amareladas e sujas. O encanamento dos esgotos passava descoberto pelo teto, deixando à mostra o escurecimento daqueles tubos velhos. Os sons da água escorrendo por dentro dos canos se confundiam com os sons vindos da chuva do lado de fora numa sinfonia aterradora. O corredor externo tinha um chão vermelho e uma lâmpada pendurada no teto que balançava com o vento. Já dentro do quarto vinte e um, havia um cheiro de parede mofada e de madeira velha, de frango assado velho, de suor e odores humanos velhos, de tinta nanquim nova e de sangue fresco. A mobília do extremamente apertado e claustrofóbico quarto era composta por uma cama antiga com um colchão fino e uma mesinha pequena com um banquinho.

“Copiar este texto em pele de carneiro curada, com uma pena de ganso. As partes em negro devem ser copiadas em nanquim e as partes em vermelho usando sangue comum. Todo o texto deve ser copiado durante a noite, após o último raio de sol e antes do primeiro, à luz de velas ou de candeeiro. Segue algum dinheiro para compra dos materiais necessários.”

Também havia cinco contos de réis. Balthazar retornou tudo ao envelope, colocando-o sob o candeeiro e o apagou. Soltou uma risada rouca, enfadonha, nervosa. Depois, recostou-se na cama tentando de alguma forma lembrar-se de sua família. Antes de cair no sono, chorou.


Crédito da imagem: São Paulo in Foco


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Sonhos






Sonhos são fontes de esperança.
Nos fazem seguir em frente
e nos fazem saber de repente
qual o sentido de toda essa dança

Eles nos trazem a lembrança
de que na vida, indubitavelmente
há momentos em que somente
queremos voltar a ser criança.

Voltar a ser, com segurança,
a pessoa que era paradoxalmente
um jovem audaz e incoerente
sem medo de suas lambanças.

Sem nenhum aviso e sem tardança,
lá no fundo, repentinamente,
vem aquele som deprimente
que arranca a alma sem fiança.

Atravessa com ponta de lança
o sonho do jovem dormente
e desperta miseravelmente
para a vida, para a desesperança.

Créditos da Imagem: Pixabay.com

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Da Hipocrisia

 


Eu sempre pensei que a palavra hipocrisia teria alguma relação com cavalo por causa do suposto prefixo "hipo". São tantas palavras que começam com esse prefixo e que tem relação com o cavalo. Hipopótamo (que seria o cavalo do rio), hipocampus (cavalo-monstro marinho), hipogrifo (cavalo-grifo - parte cavalo, parte leão e parte águia). Então, tentando encaixar esse suposto conhecimento com o sentido conotativo (e até denotativo) atual da palavra, eu ficava imaginando que deveria ser algo como "agir como o cavalo". Não, isso não fazia sentido mas minha mente se deleitava com esse exercício de raciocínio meio ilógico de relacionar uns conhecimentos com outros.

Aí, entendendo um pouco de química, percebi que o prefixo "hipo" também tinha a noção de algo inferior ou menor. Inclusive, essa definição está no dicionário. Por exemplo, o ácido hiposulfuroso tem esse nome por ter uma redução no número de oxigênios, assim como o ácido hipoclososo, o ácido hipofosforoso e o ácido hipobromoso. Na medicina também esse prefixo tem essa finalidade... O hipotálamo fica sob o tálamo, a hipófise é chamada assim por crescer sob o encéfalo. Também em outros termos como o hipotireoidismo que é a queda na produção dos hormônios da tireóide e a hipoglicemia que é um distúrbio provocado pela baixa na concentração de glicose no sangue.

Logo comecei a pensar que talvez hipocrisia tivesse mais a ver com o hipo que vem do hypo grego (baixa ou inferioridade) do que com o ippos (cavalo). Parece fazer sentido, não? Mas aí teria um problema: se o "hipo" de "hipocrisia" fosse um desses prefixos, teria que haver um significado para "crisia". Mas o único significado que encontrei para "crísis" foi "a designação científica da vespa doirada". Se fosse para inventar um monstro para algum jogo, poderia criar o Hipocrisis que seria meio cavalo meio vespa doirada... Seria uma besta intrigante com forma de cavalo, cara e asa de vespa. Imagine o som desse animal galopando como um cavalo e zunindo como uma vespa. Teria uma grande atração por fontes de luz e se alimentaria de outros insetos, mas se reproduziria sexualmente e daria a luz a potros-larvas. 

Mas ainda não entendia o significado da palavra "hipocrisia". Somente então fui pesquisar a palavra inteira e então entendi que esse era o nome dado aos atores gregos. A arte da encenação para entretenimento era conhecida como "hupókrisis". Faz todo sentido. Os atores fingem ser quem não são mas não com a intenção de enganar e sim de divertir, servir ao público com sua arte. O próprio termo grego "hypokrínomai" significa "diálogo" e parece ter muito a ver com o significado original.

Então, como foi que essa palavra que estava associada à arte do palco e da diversão se tornou assim com um sentido tão horrendo no dia de hoje? Não se sabe. A palavra como tal na língua portuguesa provavelmente já tenha o mesmo significado desde o século XIV. Há quem creia que o sentido tenha a ver com a interpretação dos sonhos na antiguidade e talvez por isso que carregue consigo a noção de dissimulação ou charlatanismo. Mas isso não é provado. E talvez nem mesmo provável pois se os gregos usavam mesmo essa palavra para designar a nobre arte da atuação, dificilmente a usariam também para algo pejorativo. 

Porém, atualmente o conceito de hipocrisia é talvez um dos piores e mais comuns na nossa sociedade. É aquele que fala sem praticar o que fala, aquele que diz algo como certo mas na hora de agir não consegue. É aquele que não tem honra nenhuma e em quem não se pode confiar pois aquilo que ele fala não se reflete em suas ações. É aquele que atua sim mas em sua vida, usando máscaras diárias que não condizem em nada com a realidade que se vive. É o pai que diz amar seus filhos mas prefere ficar no trabalho ao invés de ir para casa; é a mãe que se esconde atrás das verdadeiras desculpas da correria do dia-a-dia para explicar suas falhas na maternidade; é o padre que prega no sermão aquilo que distorce para enquadrar sua falsa fé em seu cotidiano; é o político que promete e não cumpre; o médico que receita algo para virose quando ele nem sabe o que o paciente tem; é o professor que ensina para alunos que não aprendem nada e sai da escola dizendo "pelo menos eu fiz a minha parte".

Talvez fosse importante encontrar essa origem da palavra simplesmente para entender a origem de uma de nossas maiores enfermidades: a pandemia da hipocrisia. Mas não. A origem da palavra só fala de encenar e de agir como outra pessoa para entreter. Ela não fala nada sobre como usamos a palavra hoje. Imagino que esse conceito seja algo que se tornou uma necessidade de ser descrita e, como em tantos outros casos, "tomamos emprestado" um termo para pervertê-lo e torná-lo algo podre. Talvez, até mesmo nisso sejamos hipócritas.


Como um "bônus", o link da imagem (e os créditos dela também) é de um artigo em inglês sobre como a hipocrisia é o ato de fazer-se sentir melhor do que se merece...