segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Vento



Haverá um dia em que, decerto
Um novo vento do sul soprará.
Alçará as areias do deserto
Prumos e níveis modificará.

A montanha irá desvanescer,
O carvalho potente ruirá.
E somente então iremos saber
Quem se curvará, quem perecerá?

Tolos são os que se opõem ao vento
Buscam manter imóveis suas paredes
Inertes ao turbilhão do advento

Nem a casa do mundo mais perene
Suportará conter fracionamento
Ante o sopro do vento sereno

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Ansiedade



“pã-pã-pã-pã-Pã-Pã-PÃ-PÃ-PÃ-PÃ-PÃÃ-PÃÃ-PÃÃÃ-PÃÃÃÃ-PÃ...”
“PACK”

Carlos bateu forte no despertador. “Cinco e quarenta e quatro”, pensou ele… Levantou apressado. “Primeiro dia no trampo novo!” Havia ficado quase quatro meses desempregado e ia começar hoje. mal podia acreditar. Era programador “Boa área, bons salários”, lhe haviam dito… Mas para seu azar, tudo correu errado na sua vida. Os gêmeos vieram e ele teve que correr de projeto em projeto, emprego em emprego. Na última empresa parecia que ia tudo bem, até que veio a crise. Foi mandado embora logo na primeira leva. Se consolou quando soube que outros companheiros também saíram. Mas agora, quatro meses depois, teve que aceitar um trabalho como analista programador júnior, reduzindo quase pela metade o salário da última empresa. E hoje era o grande dia. Entrou no banho correndo, pensando em tudo isso. Escovou os dentes, se vestiu. Camisa surrada, calça jeans e sapatenis.

Desceu e terminou de caminhar. O dia apenas amanhecia, mas ele nem notou. Chegou até o prédio do escritório e olhou o relógio: seis horas. Achou muito estranho. Deveria chegar às sete… conferiu o relógio de pulso: sete horas. Foi até a portaria. Somente o segurança no local. Perguntou as horas por conferir e ele disse: “cinco e cinquenta e oito.” Abismado, Carlos disse: “Como assim? Seu relógio deve estar errado…” E o segurança, com um sorriso no rosto, respondeu: “Impossível! Acabei de ajustar para o horário de verão…” Então, Carlos entendeu tudo… Saiu e foi até uma padaria que estava abrindo. Pediu uma média e um pão na chapa e se sentou numa mesinha livre para tomar café, rindo à toa e ajustando o relógio.

...Começou a ouvir, então um barulho… O movimento da padaria… Piscou uma, duas vezes e despertou. Havia cochilado! Eram sete e vinte e cinco e uma fila grande para pagar a conta. Pagou e correu. Chegou no prédio novamente às sete e quarenta, atrasado e com cara de sono. Ao chegar, o mesmo segurança… e mais ninguém! “Senhor… tudo bem?”, perguntou o segurança para Carlos que, apressando-se, disse: “Venho para a empresa Katnos, quinto piso, e…”, o segurança começou a rir e lhe disse: “Volte amanhã, senhor”. Carlos ficou estupefato. Como assim voltar amanhã. Foi ficando vermelho de raiva e já ia xingar o segurança quando seu celular tocou. Levantou a mão para o segurança em sinal de “espere” e atendeu, pois viu que era sua esposa. “Alô, amor, to com um problema aqui no escritório e…”, mas foi interrompido pela esposa do outro lado: “Amor, como assim escritório? Acordei e achei que você tinha ido comprar pão…” Ele já estava ficando doido. “Amor… eu vim trabalhar e tem algo muito estranho aqui…” A esposa respirou fundo e começou a rir, fazendo com que ele ficasse mais nervoso. Ia começar a gritar de vez, estava prestes a explodir, quando ela disse baixinho, o mais carinhoso que podia: “Amorzinho. Hoje é Domingo! Quando estiver voltando, passa na padaria e traz pão, ok? Beijos…”

Carlos pediu desculpas ao segurança que não se aguentava de rir e na volta passou na padaria e tomou o ônibus para casa...



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O Guardião dos Desconhecidos

Chamas no horizonte, céu com nuvens alaranjadas.

I

Ouçam, meus amigos, escutem bem
A história que lhes venho contar
Pois àquele que conhece o além
Os céus, suas bênçãos hão de dar
A coragem que este homem tem
Fez demônios o medo sentir
E mesmo que não tenha um vintém
Até o mais poderoso fogo fez servir

Cavalgando pela estrada de Cal'em
Seu cavalo depressa a galopar
Uma garota, bonita e de bem
Ele se deu por encontrar
"Moça, conforto meu cavalo não tem
Mas a tempestade esta por vir
E para segurança que convém
Ele pode te servir."

"Agradeço cavaleiro de terras além
Mas tempestade aqui não vai passar
E eu, por ser pessoa de bem"
Sei que é aqui que vou ficar"
Disse a garota, sem vai-e-vem
Sem querer partir
Pois sabia muito bem
Que perder tudo não poderia permitir

Mas nosso herói, valente porém,
Não poderia assim sair
E ficou, como a um homem convém,
E da tempestade, não quis mais fugir.

II

“Conte-me cavaleiro, sobre essa tempestade,
diga-me mais sobre sua natureza
e explique-me de sua qualidade,
pois o céu está uma beleza!
E não parece haver possibilidade
De que água alguma venha
a não ser que, por alguma peculiaridade
O Sol água contenha”

“As torrentes que virão na verdade
não serão de água, nem trarão frieza
Serão de fogo em sua integridade,
Capazes de destruir uma fortaleza!
Mas fugir não temos mais oportunidade
Resta-nos proteger-nos dessa força ferrenha.
Conheceis, donzela, por eventualidade
Próximo de aqui alguma lapa que nos convenha?”

“Ainda não creio em ti, é verdade
Cavaleiro, te digo com crueza
Mas por pura celeridade
Há uma caverna nas redondezas
É uma gruta sem profundidade
Mas que deve requerer uma senha
Pois um mago lá vivia em frugalidade
E dos prazeres do mundo se abstinha”

Ao saber de tal realidade
Disse o cavaleiro “Venha!
Venha princesa, sem temeridade
Mostre-me onde fica essa penha!”

III

A donzela guiou o cavaleiro
pelos prados sem demorar
e do mago o antigo cativeiro
facilmente pode alcançar.
“Aí está o viveiro
Onde poderá se esconder
Mas te recomendo, seja ordeiro
ou há de se arrepender!”

“Olhe veja, doce donzela, sem receio!
Para o horizonte te incito a mirar
Veja que sem bom paradeiro
Não conseguiremos nos aguentar!
Veja as nuvens em seu passeio!
Veja, já começam a aquecer
Se não vens, como requeiro,
Não demorarás a perecer!”

A donzela olhou e um susto lhe veio
O céu começava a flamejar
E constatou ser certeiro
O que o cavaleiro lhe estava a contar
Um desespero em sua face veio!
Sua família ia morrer!
E como se não bastasse o fim derradeiro,
A senha não teriam como saber!

“O que fazer!” disse com receio
“Minha família há que salvar
O povo da vila há de saber,
E a senha hemos de encontrar!”

IV

“Donzela, fique, a senha a descobrir
Enquanto eu à sua vila irei
Dizer ao povo para sair
Juro por minha vida que tentarei
Sem demora a todos atrair
E que somente irei retornar
Quando o fogo começar a cair
Ou quando a todos puder avisar”

E ele saltou em seu cavalo a partir
Mas a donzela disse “Buscarei!
Buscarei a senha sem me omitir
Não sei como começarei,
Mas sei que não vou permitir
que as rochas a nos parar
Persistam em nos impedir
De nossa proteção encontrar!”

Ou cavaleiro se distanciou a sorrir
Para a vila de Ka’wei
E chegando, começou por pedir
“Pessoas, a mim vireis
para em sua liberdade seguir
O céu está quase a desmoronar
E todos devem sair
E proteção a si buscar”

Vendo o céu, seu fogo a bramir
O povo, sem pestanejar
Fez o que o estranho estava a pedir
E fugiu para em cavernas e grutas a se ocultar

V

Vários dos homens o estranho seguiram
Levando consigo somente o que tinham às mãos
Nem riqueza nem espadas eles levaram
Nem água, nem vinho nem grãos.
Ao chegarem à gruta, porém, aturdiram
As rochas, a entrada a encerrar.
Cavaleiro e donzela a todos disseram
“A senha, temos que encontrar!”

Amedrontados, todos prosseguiram
Jovens, mulheres, clérigos e anciãos
a buscar na gruta como entrariam.
Os magos, conhecidos por serem ermitãos
Em suas grutas entrar não permitiam
E suas chaves eram difícil de encontrar
Mas os campesinos não parariam
De tentar uma forma de entrar

O fogo se acercou, como todos temiam
Os velhos machucaram suas mãos
Os jovens a esperança perdiam
Mas não encontraram na rocha desvãos.
As nuvens, como demônios, cingiam
Os céus e o horizonte a queimar
E quanto mais fogo bramiam
Mais medo faziam alastrar

Mas o cavaleiro disse “Não Temam!
A senha consegui encontrar!”
Em festejar todos bradaram
“Vamos a proteger-nos sem tardar!”

VI

O cavaleiro, à frente da gruta avançou
Concentrado, com respeito
de joelhos se prostrou
Respirou e buscou força em seu peito
Abriu o pergaminho e a senha entoou:
“Ó pedra com fecho perfeito
Ó pedra que sou, fui e serei
Consinta no que é meu de direito
Abra o caminho que em sua forma tranquei!”

Sem demora a pequena avalanche começou
E para os lados, esquerdo e direito
Um grande estrondo ecoou!
Entendendo bem o que havia feito
O nobre guerreiro então indicou
“Entrem amigos que os protegerei
Serei eu aquele que ficou
E sem temer, aos demônios deterei!”

Todos entraram, E ele começou
A tentar fazer o que ninguém havia feito
Deter a tempestade que um feiticeiro lançou
E proteger inocentes aflitos.
Sua espada levantou e então ele gritou
“Venham demônios, os derrotarei!”
E um urro ele lançou
“Venham que eu não os temerei!”

E então tudo começou
E eu, da caverna escutei
O jovem cavaleiro lutou
e por ele eu orei.

VII

Por horas a fio, sem cessar
O jovem guerreiro lutou
Com sua espada demônios a matar
E em seu escudo o fogo encerrou
E enquanto o céu seguia a crepitar
Em sua batalha seguiu sem desvanecer
Porém o ferro a esquentar
Parecia que lhe ia derreter.

Seu escudo estava a quebrar
Quando uma bola de fogo o acertou
E sua espada, sem fio a ficar
Quando a pilha de demônios aumentou
Seu cavalo morreu e nem pode ele lamentar
Pois caiu com sangue a ferver
E os inimigos que sem cessar
A ele tentaram dissolver

Mas com tenacidade sem se igualar
de um pulo se levantou
e com bravura não quis se dobrar
aos invasores ele surrou.
Por fim, a tempestade a se encerrar,
ele então pode ceder
E ao final, em prantos chorar
Ao companheiro que estava a morrer

“Ó céus, que grande pesar
Meu companheiro estás a receber
Por que ele não pude salvar
E nunca mais poderei ver!”

VIII

Saímos, então de nossa proteção
A donzela, foi a seu cavaleiro a consolar.
Nós, porém, contemplamos a destruição
Que somente uma chuva de fogo poderia causar.
Nada a não ser chamas em nossa visão
Campinas e colheitas todas acabadas
E, mesmo após haver concluído sua missão.
um cavaleiro com face desolada

“Cavaleiro, porque tanta comoção?
Seu cavalo, morreu valente, a seu lado a lutar.
Ele merece um bom enterro e uma oração!”
O jovem se levantou e disse, a concordar:
“Cavalguei com meu cavalo desde minha unção
Por prados e pântanos e cidades inacabadas
Partilhamos origens, destinos e reputação,
Pois pelo rei suas rédeas me foram dadas”

“Agora o enterremos e façamos veneração
Pois ele foi o único a se vitimar.
Cumpriu com a vida sua missão
e agora poderá descansar.”
Nós concluímos do cavalo a obrigação
E depois agradecemos por nossas vidas resgatadas
Ao cavaleiro e a seu grande coração
E a seu cavalo e sua vida entregada

E o cavaleiro se foi em sua peregrinação
E nós, com a lembrança da queimada,
do homem que nos veio em proteção
Quando não tínhamos mais nada.